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Sete repasses a Dark Horse e festa em mansão expõem conexões dos Bolsonaro com Vorcaro

Delator confirmou US$ 12,3 milhões repassados diretamente para o filme e Flávio Bolsonaro comemorou aniversário da filha em mansão gerida por empresa ligada ao banqueiro

Relatos reforçam as informações sobre repasses que contradizem a versão apresentada por Flávio BolsonaroFoto: Site do PT / IA

Duas reportagens publicadas nesta terça-feira, 8, revelam novos capítulos das conexões da família Bolsonaro com o entorno de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. O Globo mostrou que um delator confirmou sete pagamentos, equivalentes a cerca de R$ 69 milhões, para o fundo usado no financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Já o ICL Notícias revelou que Flávio Bolsonaro comemorou o aniversário da filha em uma mansão administrada pela Prime You, empresa que teve o banqueiro como sócio e ainda gere parte de seu patrimônio.

O operador financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, confirmou à Procuradoria-Geral da República (PGR) ter realizado sete transferências por ordem de Vorcaro. O relato reforça as informações sobre repasses que contradizem a versão apresentada por Flávio Bolsonaro, que havia afirmado que os pagamentos terminaram em maio de 2025.

As transferências somaram US$ 12,3 milhões e ocorreram entre fevereiro e setembro do ano passado. O dinheiro foi enviado ao Havengate, fundo sediado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado de imigração Paulo Calixto, próximo de Eduardo Bolsonaro. O caso já havia exposto a atuação de um lobista que conectava Flávio ao banqueiro e cobrava recursos para o filme.

Mineiro relatou os pagamentos em seu acordo de colaboração premiada. A sétima transferência, de US$ 1,66 milhão, já havia sido revelada pela revista piauí. A novidade trazida por O Globo é a confirmação dos sete repasses pelo operador que afirma ter executado as ordens de Vorcaro.

O destino declarado dos recursos era a produção de Dark Horse, longa sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro, com foco na campanha de 2018. Mas, segundo o jornal, a Polícia Federal e a PGR também investigam se o dinheiro serviu para financiar a permanência de Eduardo nos Estados Unidos.

O ex-deputado mudou-se para o Texas em fevereiro de 2025, mesmo mês em que começaram as transferências. A possibilidade de uso dos valores para bancar sua estadia permanece como hipótese sob investigação.

Mineiro também afirmou ter feito entregas de dinheiro vivo, inclusive em malas, a terceiros indicados por Vorcaro, mas alegou desconhecer a finalidade desses repasses. A reportagem não identifica essas pessoas como integrantes da família Bolsonaro.

A mansão de Angra dos Reis

A publicada pelo ICL Notícias trata de uma comemoração familiar de Flávio Bolsonaro em fevereiro deste ano. O senador celebrou o aniversário da filha em uma mansão à beira-mar, em Angra dos Reis (RJ), administrada pela Prime You.

A empresa atua no compartilhamento de imóveis, aeronaves e outros bens de luxo. Vorcaro foi seu sócio entre setembro de 2021 e setembro de 2025. Embora tenha deixado a sociedade antes da festa, a companhia ainda administra parte de seu patrimônio, segundo o ICL.

A mansão é dividida em quatro cotas. Uma delas pertence à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa do advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio. Procurado pela reportagem, ele confirmou que emprestou a casa ao senador.

“A utilização do imóvel pelo senador Flávio Bolsonaro e sua família ocorreu exclusivamente em razão da relação de amizade que mantenho com o senador, sem qualquer pagamento, contraprestação ou relação comercial”, afirmou em nota.

Tomaz negou vínculos com o banqueiro e disse que Vorcaro não é proprietário da mansão. “Daniel Vorcaro não possui qualquer participação neste imóvel. Não o conheço, nunca estive com ele e jamais mantive qualquer relação pessoal, profissional ou empresarial com ele”, declarou.

Cotas de quase R$ 40 milhões, heliponto e iate

De acordo com os documentos consultados pelo ICL, as cotas da mansão somavam quase R$ 40 milhões. A empresa de Willer Tomaz adquiriu 25% em 2022. Entre os cotistas identificados pela reportagem está também um fundo ligado a Maurício Quadrado, ex-sócio de Vorcaro no Banco Master.

Construída em um terreno de mais de 7 mil metros quadrados, a propriedade tem sete suítes, piscina aquecida, sauna, academia, cinema ao ar livre e heliponto privativo. Um iate fica à disposição dos proprietários, que contam ainda com serviços de cozinha, segurança e limpeza.

Outro cotista, o empresário Fabrício Bloisi, afirmou ao ICL que não conhece Flávio e não foi consultado sobre a cessão da casa. Segundo ele, os proprietários utilizam o imóvel de forma independente.

A assessoria de Flávio e o presidente da Prime You não responderam às perguntas do ICL até a publicação da reportagem.

Contas do filme continuam sob questionamento

O financiamento de Dark Horse colocou Flávio no centro da crise após o Intercept Brasil divulgar mensagens em que o senador cobrava dinheiro de Vorcaro para a produção. Inicialmente, ele prometeu apresentar as contas do longa. Depois, mudou o discurso e passou a chamar o assunto de “página virada”.

A nova reportagem de O Globo também trouxe detalhes de uma perícia privada contratada pela Go Up Entertainment, produtora do filme. Segundo essa análise, Dark Horse custou US$ 13,39 milhões, equivalentes a R$ 75,18 milhões na conversão utilizada pelo perito. Do total, 72% teriam sido gastos nos Estados Unidos e 28% no Brasil.

Cinco produtores do mercado audiovisual ouvidos reservadamente pelo jornal consideraram elevados os valores atribuídos às etapas iniciais. Uma fase preparatória, chamada de “soft production”, consumiu aproximadamente US$ 2,69 milhões, cerca de 20% do orçamento. Segundo os profissionais consultados, essa etapa costuma representar entre 3% e 5% das despesas.

Também provocou estranhamento o fato de essa fase ter custado mais que a pré-produção, de US$ 2,66 milhões, que envolve mobilização das equipes, preparação técnica e ensaios.

Os valores constam de uma análise encomendada pela própria produtora. A PF cobrou esclarecimentos sobre aspectos financeiros, contratuais e operacionais do projeto.