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Dark Horse: lobista conectava Flávio Bolsonaro a Vorcaro, cobrava dinheiro e apagava notícias

Sem aparecer nos documentos do filme, Thiago Miranda captava recursos, intermediava encontros e mantinha contato com o senador, o banqueiro e o ex-ministro Mario Frias

Foi Thiago Miranda quem marcou o encontro entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, em dezembro de 2024, no qual o banqueiro entrou no financiamento de Dark Horse.Foto: Site PT/IA

Mais um personagem que atuava nas sombras surgiu no escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e o financiamento milionário de Dark Horse. Segundo reportagem da revista piauí, o publicitário e lobista Thiago Miranda mantinha contato direto com o candidato da extrema direita, o ex-dono do Banco Master e o deputado e ex-ministro Mario Frias (PL-SP), produtor executivo do filme sobre Jair Bolsonaro.

Vorcaro está preso preventivamente desde março deste ano e responde por gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O escândalo do Banco Master é a maior fraude já registrada no sistema financeiro do país e envolveu também o uso de recursos de aposentados e pensionistas. O banqueiro financiou o filme sobre a história de Jair Bolsonaro. O candidato Flávio Bolsonaro pediu a Vorcaro R$ 134 milhões, em áudio divulgado pelo Intercept Brasil e amplamente divulgado. Deste total, o bolsonarista admitiu ter recebido R$ 61 milhões, mas o valor pode ter sido ainda maior.

Embora não apareça como produtor, financiador ou executivo da Go Up Entertainment nos documentos conhecidos do projeto do filme Dark Horse, Miranda exercia um papel central nos bastidores: ajudava a captar dinheiro, cobrava parcelas atrasadas, marcava encontros e levava recados de um lado para o outro. “O Thiago foi sempre o elo. Sempre”, afirmou o jornalista Leo Dias sobre o ex-sócio à revista.

As novas revelações ampliam a lista de perguntas que Flávio Bolsonaro evita responder e reforçam a necessidade de uma investigação independente. Nesta semana, o PT pediu ao Conselho de Ética do Senado a perda do mandato do candidato por quebra de decoro e pela “teia de mentiras” apresentada sobre sua relação com Vorcaro. O partido também já havia destacado que registros do Coaf contradizem as versões dadas por Flávio. O presidente Lula também pediu transparência nas investigações do Banco Master, doa a quem doer.

Cobrança de parcelas

Foi Thiago Miranda quem marcou o encontro entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, em dezembro de 2024, no qual o banqueiro entrou no financiamento de Dark Horse. No mês seguinte, diante do atraso do primeiro aporte, o lobista pressionou Vorcaro e afirmou que a produção estava em dificuldades.

A atuação continuou ao longo de 2025. Em agosto, Miranda enviou ao banqueiro uma planilha que apontava US$ 10,6 milhões já repassados e parcelas em atraso. Ele queria uma previsão para transmitir aos demais envolvidos no projeto.

Em outubro, voltou a cobrar a liberação do dinheiro e alertou que, sem os novos pagamentos, a produção poderia parar. Vorcaro respondeu que havia autorizado mais uma parcela. Na sequência, Miranda informou que Flávio entraria em contato com o banqueiro.

A troca de mensagens é mais uma evidência da participação direta do candidato nas tratativas financeiras do filme. Flávio, no entanto, afirmou publicamente que os pagamentos de Vorcaro haviam terminado em maio de 2025, versão já desmentida por um relatório do Coaf que registrou nova transferência de US$ 1,6 milhão em setembro daquele ano.

Segundo Leo Dias, a proximidade entre Miranda e Flávio não se restringia ao longa-metragem. O jornalista relatou ter encontrado os dois em uma festa de aniversário realizada em fevereiro de 2025 na casa de Vivianne Leão Piquet, ex-mulher do piloto Nelson Piquet. Miranda também teria contado que chegou a ser cogitado para coordenar a campanha presidencial do filho de Jair Bolsonaro.

Notícia retirada do ar

O papel do lobista também aparece em outro episódio revelador. Em agosto de 2025, o Portal Leo Dias publicou uma notícia sobre a produção de Dark Horse. Vorcaro não gostou da exposição e reclamou diretamente com Miranda, dizendo que a divulgação contrariava um acordo para manter o projeto fora do conhecimento público.

Após procurar Mario Frias e Flávio Bolsonaro, Miranda comunicou ao banqueiro: “Já mandei deletar”. A notícia foi retirada do ar. Leo Dias disse que desconhecia o envolvimento do então sócio com o filme e confirmou que apagou a publicação a pedido dele.

A relação financeira em torno do portal também chama atenção. Em julho de 2024, Miranda intermediou a venda de 17% do veículo por R$ 10 milhões a um empresário apontado como possível laranja de Vorcaro, suspeita negada pelos envolvidos. Entre fevereiro de 2024 e maio de 2025, o Banco Master ainda transferiu R$ 9,9 milhões ao portal, supostamente por um contrato de publicidade.

Procurado pela piauí, Thiago Miranda informou, por meio de seu advogado, que não se manifestaria. Enquanto novos personagens, pagamentos e mensagens vêm à tona, Flávio continua sem apresentar o contrato integral do financiamento, a lista completa dos investidores e a destinação detalhada dos recursos. O caso que o candidato tentou declarar encerrado está cada vez mais longe de ser um “livro fechado”.