As candidatas amazônidas das Eleições 2026, que vivem o dia a dia da floresta, buscam furar o isolamento político para pautar o Congresso Nacional a partir da realidade dos territórios, influenciando o debate sobre o futuro da Amazônia. A importância da preservação da biodiversidade e do equilíbrio climático do bioma foi mundialmente lembrada e celebrada em 5 de agosto, Dia da Amazônia. A data também homenageia a criação da Província do Amazonas em 1850 pelo Imperador Dom Pedro II.
Para essas mulheres candidatas da região amazônica, a pauta ambiental não é um conceito abstrato de palanque, mas uma urgência que dita a sobrevivência de suas comunidades. Segundo Brenda Oliveira, candidata a deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores pelo Estado do Amazonas, “a entrada de mulheres indígenas, ribeirinhas e extrativistas no Congresso rompe com o perfil historicamente hegemônico do parlamento, descentralizando a tomada de decisões”, afirma.
Anne Moura, candidata a deputada federal, também pelo Estado do Amazonas, faz coro à voz das candidatas amazônidas e acrescenta que ampliar essa representação é fortalecer a democracia e garantir que a Amazônia não seja vista apenas pelas suas riquezas naturais, mas principalmente por sua população.
Efeitos das mudanças climáticas
As mulheres são as primeiras a sentir os problemas climáticos, uma vez que garantem o cuidado das famílias, e sofrem junto com crianças e idosos, a falta de estrutura. Por isso, carregam essa realidade também em suas candidaturas.
Alessandra Munduruku, candidata a deputada federal pelo Estado do Pará, conta que cresceu vendo a mãe e as avós lerem o rio, a lua e a época da fruta. “Quando o rio seca, tem gente que anda três, quatro horas até chegar num barco, muitas vezes doente, sem nenhuma ambulância fluvial. Minha proposta de adaptação climática não é só teoria: é orçamento federal para embarcação própria nos períodos de seca, para diminuir essa logística que hoje custa vida”, diz.
A luta das quilombolas
Um movimento de construção de identidade tem ganhado força entre as comunidades tradicionais da Amazônia. Lideranças locais vêm manifestando desconforto ao serem tratados de forma genérica como “negros” ou “comunidades de pretos”, preterindo o termo quilombola. O incômodo, que antes ficava restrito às assembleias internas, agora pauta debates públicos sobre a necessidade de respeito à identidade política oficial desses povos.
A candidata a deputada estadual pelo Amazonas, Lourdes Quilombola representa essa luta. Ela diz que embora o orgulho da ancestralidade negra seja indiscutível, o conceito de “quilombola” carrega consigo o direito constitucional à propriedade coletiva da terra, à cultura e a políticas públicas específicas de reparação histórica.
“Nos tratar apenas pela cor da pele, esvazia o caráter de luta territorial e dilui as demandas específicas das comunidades em uma categoria ampla e urbana”,explica.
Em um cenário em que a preservação da identidade é sinônimo de sobrevivência, especialistas em direitos humanos alertam que a generalização identitária opera como uma barreira invisível no acesso a garantias fundamentais na Amazônia.
Ao rejeitar o rótulo puramente racial e exigir o termo histórico, a candidata pretende reforçar o debate de que a mobilização na região norte vai muito além do debate urbano sobre a cor da pele, trata-se, primordialmente, da salvaguarda de um modo de vida tradicional e da permanência em suas frentes territoriais.
O sustento da economia da floresta
A economia também é uma preocupação das candidatas, pois as mulheres já sustentam a economia da floresta, muitas vezes, sem que o valor fique na comunidade. Porém elas apresentam que a segurança jurídica ainda é um problema a ser enfrentado uma vez que “sem terra protegida, não existe bioeconomia sustentável”, explica Alessandra Munduruku.
As comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas e extrativistas são exportadoras de matérias primas, como por exemplo, o cacau que é exportado para a Suíça e que torna o país como um dos maiores produtores de chocolate do mundo.
Outros produtos como o óleo de andiroba, a copaíba e as frutas nativas da região também são exportadas, a candidata do povo Munduruku pretende inverter essa lógica, uma das suas propostas é trazer a infraestrutura de beneficiamento para dentro do território, para que a mulher que colhe a matéria prima também seja quem processa e vende. Ela acredita que dessa forma, a renda irá ficar na aldeia e beneficiará toda a comunidade.
Linha de frente contra a destruição ambiental
Sob a constante ameaça da violência e do abandono estatal, mulheres indígenas, quilombolas e ribeirinhas lideram a resistência na linha de frente contra a destruição ambiental. Esse enfrentamento ganha contornos ainda mais dramáticos com o avanço do garimpo ilegal, uma atividade que não apenas rasga a floresta e contamina os rios com mercúrio, mas desestrutura profundamente o tecido social das comunidades.
As lideranças femininas denunciam que a chegada dos garimpos clandestinos atrai redes de crime organizado, resultando em uma escalada de aliciamento de jovens, exploração sexual e violência de gênero. Enquanto a contaminação química ameaça a segurança alimentar e a saúde das futuras gerações, essas mulheres transformam seus próprios corpos e territórios em escudos para frear uma economia predatória que avança sem freios na ausência do Estado.
“Na Câmara Federal, quero atuar para fortalecer os programas de proteção às defensoras e aos defensores de direitos humanos, cobrar fiscalização e presença permanente do Estado nos territórios e garantir orçamento para o enfrentamento ao garimpo ilegal, à grilagem e aos demais crimes ambientais”, diz a candidata Brenda Oliveira.
Barreiras geográficas e estruturais
Além do clima de vulnerabilidade e violência gerado pelo avanço do crime organizado, essas lideranças femininas enfrentam o cenário de isolamento político durante o período eleitoral.
Candidatas ribeirinhas, indígenas e extrativistas encontram barreiras geográficas e estruturais severas. Operando frequentemente nas margens dos grandes centros urbanos, as propostas dessas mulheres encontram dificuldade para romper as fronteiras de seus próprios territórios.
Essa exclusão sistemática atua como uma barreira invisível, enfraquecendo a competitividade de suas candidaturas e perpetuando a sub-representação na tomada de decisões públicas sobre o futuro e a preservação do bioma amazônico.
Anne Moura acredita que a força para vencer essa barreira que enfraquece a competitividade das candidaturas das mulheres amazônidas está na articulação coletiva. “A Amazônia é imensa, temos diferentes povos, territórios e realidades, mas existem lutas que nos unem: a defesa da vida, dos nossos territórios, da democracia e do direito de decidir sobre o futuro da região onde vivemos”, pontua.
Alessandra Munduruku também acredita na coletividade. “Faço parte de um movimento nacional de candidaturas indígenas que divide estrutura, visibilidade e legitimidade, é assim que se enfrenta o isolamento político”, diz.
O Pará, estado de Alessandra, já se organiza em coletivo e com uma mobilização histórica, que durou 20 dias, garantiu vitória para as comunidades tradicionais, forçando o governo paraense a recuar e revogar a Lei Estadual 10.820/2024 que abria brechas para substituir professores presenciais por ensino à distância (EAD) com aulas gravadas e transmitidas por TVs em territórios isolados.
O desafio de furar a bolha partidária e cruzar rios em busca de apoio é complexo, mas o horizonte desenhado pelas candidatas que emergem da floresta vai além das urnas de outubro. Para elas, ocupar uma cadeira no Congresso Nacional não é apenas uma vitória eleitoral, mas um ato de sobrevivência e reconfiguração do poder. É a tentativa de fazer o Brasil central finalmente ouvir o que ecoa das margens.
“A luta também é um reflorestamento não só da terra, mas do corpo, da mente e da cidade também”, resume a candidata Alessandra Munduruku projetando o embate que a aguarda na capital federal.
“Muita gente sai da cidade para destruir a floresta; a gente precisa reflorestar também o jeito de pensar de quem manda desmatar. Território protegido é gente com saúde, com renda e com decisão nas mãos. Essa é a Amazônia que eu quero representar no Congresso.”
Da Redação do Elas por Elas.