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Cozinhas Solidárias alimentam, acolhem e fortalecem comunidades

Presentes em 347 municípios, iniciativas servem mais de 370 mil refeições gratuitas por dia e são lideradas, na maioria, por mulheres

Rede de mulheres em todo o Brasil fazem da cozinha solidária uma ferramenta de organização socialFoto: Roberta Aline (MDS)

“Eu comecei a frequentar a cozinha solidária por causa do meu tratamento contra a tuberculose. Eu adoro a comida de lá, é muito boa e gostosa. Eles me tratam super bem, com muito carinho e atenção, e eu só tenho a agradecer por toda a ajuda que dão para mim e para tantas outras pessoas que precisam.”

O depoimento da dona de casa Elizângela de Souza Baptista, 34 anos, moradora da Chatuba de Mesquita, na Baixada Fluminense (RJ), traduz a atuação das cozinhas solidárias no Brasil: espaços de alimentação, acolhimento e acompanhamento social.

Experiências como a de Elizângela fazem parte de uma rede que nasceu da organização popular e ganhou escala e apoio do Governo do Brasil a partir de 2023, com a criação do Programa Cozinha Solidária. Instituído pela Lei nº 14.628/2023 e regulamentado pelo Decreto nº 11.937/2024, o programa é executado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e fortalece iniciativas da sociedade civil que atuam diretamente no combate à fome e à insegurança alimentar.

Atualmente, o país conta com cerca de 1.400 cozinhas habilitadas no sistema. Juntas, elas servem mais de 370 mil refeições gratuitas por dia em 347 municípios. E há uma característica que ajuda a explicar a força dessa rede nos territórios: 91% das cozinhas são lideradas por mulheres. São elas, em grande parte mulheres periféricas, vulnerabilizadas e negras, que estão na linha de frente dessas iniciativas. Organizam a produção, articulam redes, acolhem famílias e fazem da cozinha um espaço que, muitas vezes, ultrapassa a oferta de comida para se transformar também em lugar de cuidado, convivência e acesso a direitos.

O Programa Cozinha Solidária oferece apoio financeiro complementar para custeio e melhorias das unidades e também amplia o acesso a alimentos saudáveis, in natura e minimamente processados, por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Comida, saúde e acolhimento

A história de Elizângela com a cozinha começou há quase quatro anos, como conta Patrícia Lyra, responsável pela iniciativa. Ela, que é carinhosamente chamada de “número um” por ter sido uma das primeiras pessoas a chegar e permanecer na iniciativa, tinha tuberculose extremamente grave, nas formas pulmonar e não pulmonar, e estava profundamente debilitada.

“Desde então, ela passou a receber acompanhamento nutricional e social da equipe. Embora seu tratamento tenha sido encerrado com sucesso e ela esteja curada, o acompanhamento continua de forma permanente devido à situação de vulnerabilidade social profunda de sua família”, relata Patrícia.

A cozinha surgiu a partir de uma parceria com a Fiocruz e atende cerca de 80 famílias, oferecendo refeições prontas de terça a quinta-feira, além de distribuir cestas básicas mensais. Também fornece lanches para 50 crianças e adolescentes que participam de oficinas culturais de teatro, música e dança promovidas em parceria com a Funarte.

“Na cozinha solidária, diferente de um restaurante popular, a gente acolhe as famílias. Aqui todas as famílias que a gente atende são cadastradas, a gente entende qual é a situação social dessas famílias, encaminha se precisar de CadÚnico”, explica Patrícia.

Iniciativas em rede

A professora Semíramis Martins Álvares Domene, professora do Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva do Instituto Saúde e Sociedade da UNIFESP (Campus Baixada Santista) e coordenadora do Grupo Nutrição e Pobreza do IEA-USP, acompanha de perto esse universo.  À frente de um projeto de pesquisa que estuda a estruturação dessas iniciativas em rede, ela considera as cozinhas solidárias potentes equipamentos de organização popular, capazes de responder a diferentes crises contemporâneas: a má alimentação, que combina fome e desnutrição ao avanço do sobrepeso e da obesidade; a crise climática; e a alta dos preços dos alimentos.

A cozinha solidária é um exemplo muito vivo de como a organização social e popular pode dar resposta a grandes problemas. Ela garante o direito humano à alimentação adequada, que é um pilar para a autonomia do sujeito e para a sustentação da própria democracia e da soberania nacional”, analisa.

Mulheres no comando

Em Porto Alegre (RS), no Morro da Cruz, a Cozinha Solidária Periferia Feminista MMM surgiu da união de mulheres da Marcha Mundial das Mulheres durante a pandemia de Covid-19, em 2020. O que começou como uma ação de solidariedade se transformou em uma horta comunitária e, depois da tragédia das enchentes que atingiu o Rio Grande do Sul, consolidou-se como uma atividade essencial para o território.

Uma das lideranças da iniciativa, Cintia Pereira Barenho, destaca a importância de manter a estrutura ativa na periferia e conectada à produção de alimentos saudáveis.

“Ter soberania alimentar, a gente decidir o que vai comer, e decidir por alimentos sem agrotóxicos. Manter e ter uma cozinha solidária na periferia é imprescindível para combater a fome”, destaca.

A cozinha serve, em média, 300 refeições diárias, de segunda a sexta-feira, e mantém parceria com a rede local de saúde, incluindo o Posto de Saúde e o CAPS, além da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Da refeição à organização comunitária

Em São Paulo, a Cozinha Solidária do Jardim Iporanga também mostra como a oferta de comida pode se transformar em uma rede mais ampla de proteção e convivência. Organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em parceria com a associação de moradores local, a iniciativa, na Zona Sul da capital paulista distribui de 120 a 150 refeições por dia, de segunda a sexta-feira, para mulheres, crianças, idosos e pessoas em situação de rua.

A chegada dos alimentos do Programa de Aquisição de Alimentos mudou a rotina da cozinha, segundo a coordenadora Caroline Alarcon Lima.

“Com a chegada dos alimentos do PAA podemos ofertar uma alimentação mais equilibrada e saudável. Com o apoio do Governo Federal podemos fazer melhorias na cozinha, fornecimento de gás e proteínas para melhorar a alimentação. Ver pessoas que muitas vezes têm vontade de comer algo e não têm condições”, ressalta.

O espaço funciona dentro de uma associação de bairro que oferece também aulas de dança, sarau, crochê, artesanato, recreação e cinema para as crianças. Assim, o almoço diário é apenas uma das dimensões de uma estrutura que se consolidou como espaço de convivência, afeto e organização comunitária.

A realidade, afirma a professora Semíramis, coloca em debate a necessidade de valorizar e remunerar esse trabalho de cuidado.

O resultado dessa confluência de esforços populares garante o direito humano à alimentação adequada, que é um pilar para a autonomia do sujeito. Sustentar a democracia e a soberania nacional depende da autonomia de cada cidadão, e isso só se dá com a garantia real de seus direitos”, conclui a pesquisadora.

Não existe almoço grátis

Para coroar a visibilidade e a importância dessas iniciativas, estreia esta semana nos cinemas o documentário “Não existe almoço grátis”, dirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel. Ambientado na maior favela do país, Sol Nascente, a 30 km do centro de Brasília, o filme evidencia as desigualdades sociais da capital do país e destaca o papel de cozinheiras que são mulheres negras, ex-empregadas domésticas, dedicadas ao preparo e à distribuição gratuita de marmitas na comunidade. 

A obra retrata um momento histórico marcante: a mobilização dessas mulheres na retaguarda e no suporte a para os integrantes do Movimento de Trabalhadores sem Teto (MTST) que viajaram a Brasília para acompanhar a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2023.