‘Ambiente saudável de informação é vital para a democracia’
População brasileira confia mais nas mensagens de amigos do que nos veículos de imprensa e no jornalismo. Isso é grave e perigoso, aponta Eliara Santana
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(*) Por Eliara Santana
“A integridade de informação refere-se à precisão, à consistência e à confiabilidade da informação. Ela é ameaçada pela desinformação, pelas informações falsas e pelo discurso de ódio.” A definição faz parte do Informe de Política para a Nossa Agenda Comum: Integridade da Informação nas Plataformas Digitais, divulgado pela Organização das Nações Unidas em outubro de 2023.
Segundo o documento, os Princípios Globais para a Integridade da Informação contemplam uma estrutura integral, holística, cuja função primordial é orientar ações para garantir um ambiente informacional mais saudável. Nesse sentido, há cinco princípios definidos pela ONU para fortalecer a integridade da informação, apresentados a seguir em linhas gerais:
1- Confiança e resiliência da sociedade: “Confiança, neste contexto, refere-se àquela que as pessoas têm nas fontes e à confiabilidade das informações que acessam, incluindo fontes e informações oficiais, e aos mecanismos que permitem que as informações fluam por todo o ecossistema. Resiliência se refere à capacidade das sociedades de lidar com perturbações ou ações manipulativas no ecossistema de informação”;
2- Mídia independente, livre e plural: “A integridade da informação só é alcançável com meios de comunicação independentes, livres e plurais. Uma imprensa livre sustenta o Estado de direito e serve como pedra angular das sociedades democráticas, permitindo um discurso cívico informado, responsabilizando o poder e protegendo os direitos humanos. A imprensa pode ser considerada livre sempre que jornalistas e trabalhadores dos meios de comunicação social – incluindo mulheres e pessoas em situações vulneráveis e marginalizadas – têm liberdade consistente para reportar e operar de forma segura e aberta, e todos os indivíduos têm acesso consistente a fontes de notícias plurais e confiáveis”;
3- Transparência e pesquisa: “O aumento da transparência por parte das empresas de tecnologia e de outros fornecedores de informação pode permitir uma melhor compreensão de como a informação é divulgada, como os dados pessoais são utilizados e como são abordados os riscos para a integridade da informação. No entanto, os desequilíbrios de poder criam barreiras à transparência. Um punhado de empresas tecnológicas tem acesso a um volume de dados sem precedentes e, juntamente com alguns proprietários de meios de comunicação social, têm um controle significativo no ecossistema da informação, por vezes em estreita relação com os Estados e com os intervenientes políticos e econômicos”;
4- Capacitação pública: “A capacitação dos indivíduos que navegam no ecossistema da informação implica que as pessoas tenham controle sobre a sua experiência on-line, possam tomar decisões informadas sobre os meios de comunicação que escolhem consumir e possam se expressar livremente. A capacitação pública requer acesso consistente a fontes de informação diversas e confiáveis”;
5- Incentivos saudáveis: “A criação de incentivos saudáveis envolve a abordagem das implicações críticas para a integridade do ecossistema de informação resultantes dos atuais modelos de negócio, que dependem da publicidade direcionada e de outras formas de monetização de conteúdos como meio dominante de geração de receitas”.
O tema da integridade da informação é pauta para o governo brasileiro desde 2023, com foco expressivo durante a reunião do G20, em que o Brasil foi sede do encontro. Várias ações, a partir de então, foram definidas e estruturadas nesse sentido.
Como podemos nos mobilizar pela busca da integridade da informação num contexto sociopolítico-cultural devassado pelas dinâmicas de desinformação? Dinâmicas essas que impactam a credibilidade dos cidadãos nos sistemas tradicionais de referência como universidades, centros de pesquisa, imprensa, instituições.
Uma pesquisa recente conduzida pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), divulgada em 10 de abril, mostrou dados inquietantes. O estudo promoveu entrevistas online com 5.250 usuários de 16 anos ou mais entre agosto e setembro de 2025. O levantamento revelou que 48% dos brasileiros desconfiam sempre ou quase sempre das informações veiculadas por veículos de jornalismo profissional, e 34% dos usuários de internet afirmaram não checar a veracidade do conteúdo.
Outros dados mostram que 60% dos usuários que acessam notícias várias vezes por dia ou pelo menos uma vez por dia o fazem via aplicativos de mensagens, e via feeds de vídeos curtos, esse número é de 52% – esses índices superam o percentual de usuários que dizem acessar com frequência notícias por telejornais, de 45%. Ou seja, a grande maioria dos brasileiros se informa via redes sociais e aplicativos de mensagens, sem checar fonte ou veracidade das informações.
No Brasil, segundo o levantamento, são cinco as plataformas que dominam o gosto dos brasileiros no uso diário, qualquer que seja a finalidade: WhatsApp (que detém a dianteira com destaque), Instagram, YouTube, Facebook e TikTok.
O levantamento também mostrou que 65% da população consome notícias diariamente, taxa que entre os jovens na faixa de 16 a 24 anos cai para 46%. Além disso, do percentual que diz não se preocupar com a checagem da veracidade das informações recebidas, 34% disseram concordar totalmente com a frase “não vale a pena pesquisar se as informações que eu recebo são verdadeiras”, e outros 30% concordaram com a afirmação “hoje em dia as informações são tão polarizadas que não vale a pena pesquisar se são falsas ou verdadeiras”.
Em resumo, esse estudo nos mostra que a população brasileira confia mais nas mensagens de amigos, brothers, “chegados” e afins do que nos veículos de imprensa tradicional, nas fontes tradicionais de informação, que desenvolvem um trabalho jornalístico. Isso é grave e perigoso.
Que tipo de opinião pública está sendo formada a partir de um ambiente informacional adoecido e dominado pela circulação de desinformação? Em que as pessoas não sabem mais em que ou em quem confiar quando buscam se informar sobre seu país, a cidade em que vivem, o mundo. E como as pessoas poderão fazer escolhas saudáveis e conscientes se elas não têm acesso a informações de qualidade, de fontes confiáveis (ainda que passíveis de críticas)? Como a democracia pode se consolidar, ser fortalecida, se o que prevalece em termos de busca de informação é a desconfiança e a busca pela opinião do amigo ou do influenciador, sem qualquer forma de apuração e/ou checagem? As pessoas ficam, dessa forma, totalmente suscetíveis à manipulação.
A integridade da informação – algo absolutamente essencial nas sociedades democráticas – passa pela credibilidade do jornalismo profissional, passa pela preocupação com a qualidade da informação que nos chega. Como isso é possível se, para um grande número de cidadãos brasileiros “tanto faz” checar ou não a informação, “tanto faz” de onde vem essa informação?
Sem um ambiente informacional verdadeiramente saudável, o que impera é o caos da desinformação – ambiente perfeito para os oportunistas. Portanto, o empenho para a construção desse ambiente é vital para a nossa democracia.
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).
