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Brasil tem capacidade para amortecer impactos de tarifaço de Trump, avaliam especialistas

Professores consultados pela Rede PT de Comunicação esclarecem consequências e veem saídas para a guerra comercial comandada pelos Estados Unidos

O tarifaço de 25% determinado pelos Estados Unidos (EUA) contra o Brasil passou a vigorar nesta quarta-feira, 22. A sobretaxa atinge 18% das exportações nacionais e é resultado de uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, sigla em inglês) atestada pelo presidente Donald Trump. A Rede PT de Comunicação ouviu especialistas para saber sobre as consequências desses e de outros embargos que ainda possam ser aventados por Washington.

Na terça, 21, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, antecipou que a Casa Branca prepara um novo pacote de sanções direcionadas a cerca de 60 países. Segundo Greer, as medidas, igualmente fruto de investigações, serão divulgadas nos próximos dias e substituirão a tarifa global temporária de 10% adotada pela administração Trump no início de 2026. No caso do Brasil, a alíquota pode chegar a 12,5% após a conclusão da apuração, prevista para a próxima sexta, 24.

Em conversa com a reportagem, a professora Marta Castilho, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), minimizou a guerra comercial empreendida por Trump contra o Brasil e lembrou do adensamento das relações econômicas com os chineses.

“Os efeitos do tarifaço sobre a economia brasileira e sobre a economia norte-americana não devem ser muito fortes em nível macroeconômico, se considerarmos a economia como um todo, pois o comércio entre os dois países vem perdendo importância já há alguns anos. Os EUA foram nosso principal parceiro comercial até início dos anos 2000, mas hoje têm um peso bem inferior ao da China nas nossas exportações e importações”, analisa.

A professora da UFRJ entende que o intuito das tarifas é tentar restaurar a indústria dos EUA e os empregos mais bem remunerados. A economia estadunidense enfrenta um processo de desindustrialização desde 1980, quando o setor respondia por 21% das vagas de trabalho. Ao final de 2024, os postos na manufatura eram pouco mais de 8%.

“Os efeitos [do tarifaço] para a economia norte-americana devem se restringir a alguns setores. Até porque, o governo norte-americano isentou das medidas aqueles produtos que eles consideravam mais importantes, como aviões, café, suco de laranja e outros”, argumenta Castilho.

Líder no mercado estadunidense, a Embraer foi inicialmente prejudicada pelas taxas impostas por Trump, embora, em julho de 2025, os EUA as tenham suspendido temporariamente. O tarifaço que entrou em vigor nesta quarta, 22, acabou deixando de fora aviões e peças exportadas pela fabricante brasileira. Também ficaram isentos produtos de origem animal, minérios, químicos, combustíveis, materiais industriais, metais, máquinas e equipamentos.

Já os produtos afetados pelo tarifaço de 25% são os seguintes: papel, etanol, açúcar orgânico, calçados, vestuário, maquinário elétrico, máquinas agrícolas, ferramentas de jardinagem, equipamentos de mineração, bens de capital, manufaturados em geral, produtos químicos diversos e itens industriais processados.

Perda de competitividade e estagflação

A economista da UFRJ também explicou como funciona o tarifaço de Trump: encarece produtos estrangeiros no mercado estadunidense e lhes tiram a capacidade de competir. “Elas [as tarifas] incidem sobre o preço dos produtos importados pelo país que as impõe. Então, quando os EUA resolvem aplicar uma tarifa de importação sobre os produtos exportados pelo Brasil, o preço dos nossos produtos vai subir no mercado norte-americano”, aponta Marta Castilho.

“E isso faz com que os produtos brasileiros fiquem mais caros em relação aos produtos americanos e de outros países que não tenham sido taxados. Ou seja, diminui a competitividade dos nossos produtos e faz reduzirmos as vendas”, completa a professora.

O professor do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) Vitor dos Santos Bueno, doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), no que diz respeito às intenções dos EUA de tentarem recuperar a indústria local, apesar de não crer que isso seja possível, muito menos taxando produtos brasileiros. “O custo do trabalho e dos insumos no Brasil são, geralmente, mais baixos que o dos EUA. O provável resultado é uma estagnação ou redução nesses setores, um aumento de inflação e uma maior pressão doméstica sobre essas políticas”, pondera.

Segundo Bueno, o tarifaço de Trump compromete as economias brasileira e estadunidense de maneiras diferentes. “Boa parte dos setores empregam quantidade significativa de trabalhadores e pode impactar em desemprego. Outro problema é que muitos produtos são feitos sob especificações estadunidenses, dificultando a redistribuição desses bens, o que gera maiores custos de armazenamento ou de adaptação para poder vender para outros compradores. Esse estresse deve prejudicar financeiramente empresas e afetar trabalhadores”, observa o professor.

“Por outro lado, dependendo da situação, esses produtos podem ser utilizados em mercados domésticos, fazendo com que a oferta aumente e reduza os preços, mas depende de cada setor e de tipo de produto”, completa Bueno.

O fim do multilateralismo 

Desde o ano passado, o Governo Lula vinha negociando por vias diplomáticas junto a Washington para evitar as tarifas. Em coletiva à imprensa, na terça, 21, o vice-presidente, Geraldo Alckmin, descartou qualquer retaliação à economia estadunidense. Ele indicou que o Brasil seguirá dialogando para reverter o contencioso comercial.

Na segunda, 20, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) iniciou uma rodada de reuniões com representantes dos setores mais atingidos pelo tarifaço. O objetivo é mapear perdas de contratos, riscos para a produção e os empregos e a necessidade de crédito para definir as novas medidas de apoio às empresas exportadoras.

Na percepção de Bueno, ainda que o Brasil resolvesse ir à Organização Mundial do Comércio (OMC), não ajudaria o país nesse momento. “Em um eventual caso de desbloqueio do órgão de apelação, o Brasil pode ter algum ganho retroativo, mas esse futuro é incerto. Por outro lado, as demandas do Brasil na OMC reforçam e mantêm postura concisa e estável de um Estado sério e respeitador das leis internacionais firmadas, gerando mais prestígio e apoio internacional”, afirma.

Sobre a crise do multilateralismo e da ordem liberal global, o professor do IDP considera que a postura brasileira de continuar recorrendo a organismos internacionais formais e agindo de maneira institucionalizada ainda é o caminho mais indicado. “Para o Brasil, o sistema multilateral é o melhor, ainda que as regras não sejam as mais adequadas à realidade. A partir daí, o multilateralismo não parece estar no fim, mas estar em um atrito, e chegando em um ponto de inflexão para se transformar em algo novo, enquanto o velho ainda não morreu”.

Bueno ainda elogiou o presidente Lula por abrir centenas de novos mercados ao Brasil desde que voltou a Presidência da República. “E outra coisa importante é ter um governo atuante, proativo e não reativo, que é justamente facilitar a abertura de mercados. O Governo Lula, junto com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, a Apex, tem feito um trabalho, junto com o Itamaraty, muito grande de promoção e abertura de mercados”, reconhece.