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Ciro, o “grande amigo” de Vorcaro, vira peça central do escândalo Bolsomaster

Reportagem da Piauí revela que ex-ministro de Bolsonaro, cotado para vice de Flávio, mantinha relação de negócios e viagens pagas pelo banqueiro preso

Investigações da PF apontam que Vorcaro teria pago viagem de R$ 2 milhões a Ciro NogueiraFoto: Reprodução

Sem saber que um dia a verdade viria à tona, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, tentou tratar como algo banal sua proximidade com Daniel Vorcaro, banqueiro preso e líder do esquema conhecido como “Bolsomaster”. Depois que veio à tona uma mensagem em que o ex-dono do Banco Master o chamava de “um dos meus grandes amigos de vida”, Ciro disse que conhece todos os grandes empresários do país e que não havia nada de especial naquela relação.

Segundo reportagem da revista Piauí, a amizade entre os dois é justamente uma das chaves do escândalo. A investigação da Polícia Federal (PF) aponta que a relação pode ter envolvido sociedade oculta, pagamentos mensais, viagens de luxo, uso de imóveis, despesas bancadas por cartão de crédito e atuação parlamentar em favor de interesses do Banco Master.

A proximidade era tamanha que, ainda segundo a reportagem, Ciro e Vorcaro trocavam mensagens em tom íntimo, viajavam juntos e tratavam um ao outro como “irmão”. Para a PF, a relação extrapolava a mera amizade. Em decisão citada pela Piauí, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou haver indícios de um “arranjo funcional e instrumental orientado por benefício mútuo”.

De acordo com o texto, em janeiro de 2025, Ciro e sua então companheira, Flávia Rosalen, passaram dias em Courchevel, estação de esqui nos Alpes franceses, em uma viagem que, segundo a PF, custou quase R$ 2 milhões e teria sido bancada por Vorcaro.

A reportagem também cita hospedagens, restaurantes caros, uso de cartão de crédito do banqueiro e um imóvel de Vorcaro que teria sido ocupado por Ciro em São Paulo.

O texto ainda aponta que Ciro aparece como beneficiário, interlocutor ou personagem relevante em ao menos 15 acordos de colaboração premiada nos últimos anos. São delações feitas por doleiros, operadores financeiros, executivos de empreiteiras, dirigentes empresariais e entregadores de dinheiro em espécie.

Apesar disso, Ciro nunca foi condenado, nunca foi preso e não se tornou réu nesses casos. Em março, antes da nova operação da PF, chegou a dizer que renunciaria ao mandato se surgisse alguma denúncia comprovada contra ele.

Cirou apresentou emenda sob medida

Um dos pontos centrais da investigação da PF é a chamada “Emenda Master”, apresentada por Ciro para ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A medida beneficiaria diretamente o modelo de negócios do Banco Master, baseado na emissão de CDBs com taxas elevadas.

A emenda teria sido redigida pela assessoria do próprio banco e o texto foi aprovado por Vorcaro, colocado em um envelope endereçado a Ciro e entregue na residência do senador, com a orientação de que o nome do Banco Master não ficasse visível.

Depois da apresentação da proposta no Congresso, Vorcaro teria comemorado, em mensagem, que o texto saiu “exatamente como mandei”. Interlocutores do banco diziam que a medida poderia “sextuplicar” os negócios do Master e provocar uma “hecatombe” no mercado.

Ciro nega irregularidades e afirma que não apresentou a emenda por encomenda de Vorcaro. Após a operação da PF, disse ser alvo de perseguição política.

Escândalo nasceu com Bolsonaro

A tentativa de Ciro de atribuir o caso Master à fiscalização do Banco Central esbarra na cronologia. O banco cresceu justamente durante o governo Bolsonaro, quando Ciro comandava a Casa Civil e Roberto Campos Neto presidia o Banco Central.

Antes disso, no período em que o BC era comandado por Ilan Goldfajn, indicado por Michel Temer, o Master não havia recebido aval para atuar. O avanço do banco ocorreu no ambiente político em que Ciro concentrava poder sobre articulação com o Congresso, cargos, emendas e interlocução com setores econômicos interessados em decisões públicas.

Ciro foi a “alma” do Governo Bolsonaro, como definiu o próprio ex-presidente ao nomeá-lo para a Casa Civil, e vinha sendo cotado para ocupar a vaga de vice em uma eventual chapa de Flávio Bolsonaro. O senador, no entanto, acabou atropelado pelo mesmo escândalo que também alcançou o filho de Jair Bolsonaro.

A matéria da Piauí lembra que Flávio foi flagrado cobrando de Vorcaro uma promessa de US$ 24 milhões para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Já no caso de Ciro, a investigação mira uma relação descrita pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, como um “arranjo funcional e instrumental orientado por benefício mútuo”, que extrapolaria a mera amizade.

Mesada e sociedade oculta

A reportagem também relata que uma empresa da família de Vorcaro fez depósitos de R$ 902 mil, entre agosto de 2023 e agosto de 2024, para uma empresa ligada a Ciro. As operações foram consideradas atípicas pelo Coaf e são tratadas pela PF como suspeitas de pagamento de propina disfarçado de relação empresarial.

Outro ponto investigado é uma sociedade oculta entre a CNLF, empresa ligada à família de Ciro, e a Green Investimentos, vinculada ao grupo de Vorcaro. Segundo a reportagem, a empresa de Ciro pagou R$ 1 milhão por uma fatia que valeria R$ 13 milhões.

Mensagens obtidas pela PF também indicariam pagamentos mensais ao senador. Em diálogos citados pela revista, aparecem valores de R$ 300 mil e R$ 500 mil associados a Ciro.