A Bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) fez uma defesa enfática da redução da jornada de trabalho, sem redução de salários, durante a votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, nesta quarta-feira. Foi aprovado o relatório do senador Omar Aziz (PSD-AM), favorável ao fim da escala 6×1.
A líder do Governo Lula no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), chamou a PEC que reduz a jornada de trabalho de “a PEC da empatia” e destacou a importância da proposta para a melhoria da vida, principalmente das mulheres do país. “Essa discussão sobre a jornada de trabalho não diz respeito a relações formais de emprego apenas”, argumentou.
“Ela está diretamente relacionada ao tempo disponível para o trabalho doméstico e o trabalho do cuidado. E quem é que exercita essas atribuições? Quem é que exerce essas atribuições? São as mulheres. Portanto, esse debate tem um grande e forte recorte de gênero. O resultado que cai sobre as costas das mulheres é uma jornada total de trabalho, significativamente maior e mais exaustiva. O tempo livre é um recurso escasso e desigualmente distribuído”, acrescentou a petista.
No mesmo tom da líder do Governo, o senador Fabiano Contarato (PT-ES), chamou a proposta de “PEC humanizadora”. Contarato também apontou a necessidade de se reduzir a jornada de trabalho em benefício das mulheres.
“Eu queria ver se nós fôssemos mulheres que não temos uma creche para botar o filho. Senador Omar, o impacto dessa famigerada escala 6×1 é tão aviltante, que eu sou professor, e nas redes da escola pública, senador Otto [Alencar], as mães não participam de atividades escolares dos filhos nos finais de semana. Sabe por quê? Porque elas trabalham de segunda a sábado. E, quando chega em casa à noite, no sábado, ela fica o domingo todo fazendo alimentação para a semana toda”, expôs o senador do PT.
Pelo progresso do Brasil
Em sua defesa do fim da escala 6×1, o líder do Governo Lula do Congresso Nacional, Randolfe Rodrigues (PT-AP), resgatou uma fala do senador fluminense Paulino de Sousa, um político do século 19 que chegou a ser ministro durante o período do Império, em favor da manutenção da escravidão. “Ele se pronunciava naquele momento contra a abolição da escravatura”, descreveu Randolfe.
“E dizia o senador Paulino o seguinte: ‘Essa proposta é inconstitucional, antieconômica e desumana, porque deixaria expostos à miséria e à morte os inválidos, os enfermos, os velhos, os órfãos e as crianças, abandonados da raça que quer proteger. Essa proposta é arriscadíssima para a ordem social e econômica da nação”, complementou o senador.
Randolfe disse aos colegas de CCJ que o senador Paulino também reclamava do trâmite da abolição da escravidão, tal qual parlamentares do centrão e da ultradireita se queixam hoje da celeridade da PEC que encerra a escala 6×1. “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades, o tempo não para”, entoou Randolfe a famosa canção “O tempo não para”, de Cazuza e Arnaldo Brandão.
O líder do Governo Lula no Congresso ainda descartou que a PEC que reduz a jornada de trabalho seja eleitoreira, como alega a oposição. “Então, é desde 1988 que é”, ironizou.
A luta da classe trabalhadora
O senador Paulo Paim (PT-RS) falou da luta histórica da classe trabalhadora por melhores condições de vida e discordou dos contrapontos apresentados pela ultradireita para derrubar PEC. Paim chegou a embargar a voz na CCJ quando confirmou que esse seria seu último mandato no Congresso. “Eu queria pedir com muito coração e alma, meu último mandato aqui, estou indo para casa, chegou a hora de voltar pra casa”, disse, ao convocar os colegas em prol da aprovação.
“Eu continuarei nos caminhos da vida, nas ruas, nas construções, no campo e na cidade. Mas eu queria muito levar comigo, senador, aquilo que defendia quando era estudante, há mais de 55 atrás”, acrescentou Paim, ao defender a negociação com o centrão e ao observar que se opor à PEC significaria “suicídio político”.
Já o senador Rogério Carvalho (PT-SE) ressaltou que a redução da jornada de trabalho foi amplamente abraçada pela população. A medida é apoiada por mais de 70% dos brasileiros, segundo o Instituto DataFolha. “Nós estamos falando de algo que vai impactar na vida das pessoas. Realmente, é uma decisão que a gente dialoga com o dia a dia das mulheres trabalhadoras, que a gente dialoga com os trabalhadores que ganham menos”, ponderou Carvalho.