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Governos são passageiros, mas relações entre países devem ser preservadas, afirma Edinho

Em entrevista ao La Nación, presidente do PT diz que Milei repete agressividade de Trump, mas nenhum deles representa seus povos. Ele detalha ainda propostas de Lula para o futuro

Edinho: "Milei é chefe de governo, não pode confundir suas atribuições com as de um militante político"Foto: La Nacion/reprodução

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, enfatizou que o Brasil não vai aceitar ingerência externa de chefes de Estado de países alinhados à extrema direita durante o processo eleitoral brasileiro. O recado, dado em entrevista exclusiva ao jornal argentino La Nación, publicada na quinta-feira, 30, reforça a defesa da soberania nacional que tem sido feita pelo Partido dos Trabalhadores e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante das claras ofensivas políticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e mais recentemente do chefe de Estado argentino, Javier Milei.

Edinho apresentou algumas das prioridades que deverão orientar o programa de um eventual quarto mandato de Lula. Entre os eixos estão o aumento da produtividade, a melhoria da qualidade do gasto público, a defesa das riquezas nacionais e a preparação dos trabalhadores para os efeitos da inteligência artificial.

Ao avaliar a vinda de Milei ao Brasil, Edinho Silva afirmou que a eventual utilização de dinheiro público argentino para financiar a participação de Javier Milei em um ato eleitoral de Flávio Bolsonaro pode provocar sanções graves.

A entrevista também abordou a decisão do governo brasileiro de restringir a entrada de dois diplomatas estadunidenses que, segundo informações publicadas na imprensa, pretendiam questionar a legitimidade das urnas eletrônicas. Edinho defendeu a atuação do Governo Lula e diferenciou observação eleitoral de tentativa de interferência no processo democrático.

“O governo agiu corretamente ao restringir a entrada desses funcionários. O Brasil tem instituições que cuidam da democracia e recebe observadores de todo o mundo, mas para acompanhar o processo, não para interferir nele. Nós respeitamos as eleições dos Estados Unidos, embora tenham sido questionadas por sua própria direção política. Pedimos reciprocidade. Não vamos aceitar nenhuma ingerência”, afirmou.

Caminhos e prioridades para o futuro

Durante a entrevista, Edinho esclareceu a importância de alianças internacionais pela defesa da soberania. E apontou, ainda, a preocupação em melhorar a qualidade do gasto público.

“Vamos melhorar a qualidade do gasto público e a produtividade e construir alianças internacionais sobre nossa reserva mundial de terras raras, com transferência real de tecnologia. Precisamos de um Estado forte que acompanhe a adoção da inteligência artificial e financie os trabalhadores que perderem seus empregos por causa dessa transformação. E precisamos de uma reforma política que fortaleça os partidos, com voto em lista, para acabar com a lógica das emendas parlamentares, recursos milionários do Orçamento que os parlamentares podem destinar de forma discricionária a obras em seus estados, que abre a porta para a corrupção”, afirmou.

Edinho defendeu que o Brasil não seja apenas fornecedor de matérias-primas estratégicas. As parcerias internacionais envolvendo terras raras devem assegurar transferência de tecnologia, desenvolvimento industrial e geração de empregos qualificados no país.

A adoção da inteligência artificial, acrescentou, precisa ser conduzida por um Estado capaz de proteger os trabalhadores, oferecer formação profissional e garantir renda durante os períodos de transição tecnológica.

Milei é chefe de governo, não militante político

Edinho condenou os ataques de Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e às instituições brasileiras, defendeu a segurança das urnas eletrônicas e destacou as entregas do governo federal que vêm fortalecendo Lula nas pesquisas eleitorais.

A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB, protocolou uma notícia de fato na Procuradoria-Geral Eleitoral para que seja investigada a origem dos recursos utilizados na viagem de Milei ao Brasil. O presidente argentino participou, no sábado, 25, da convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.

Segundo Edinho, a iniciativa tem dimensões políticas e jurídicas. O presidente do PT ressaltou que Milei pode manifestar suas opiniões, mas não pode utilizar a condição de chefe de Estado para atacar instituições brasileiras e interferir no processo eleitoral.

“É uma resposta política e também jurídica. Milei é chefe de governo, não pode confundir suas atribuições com as de um militante político. Pode vir ao Brasil e dizer o que pensa, mas não pode atacar as instituições brasileiras: isso é inédito na história dos dois países. Queremos saber a origem dos recursos de sua viagem. Se foi dinheiro privado, não há problema. Mas, se houve dinheiro público, a lei brasileira proíbe que outro país interfira em nosso processo eleitoral. Isso é crime”, afirmou.

Caso merece apuração rigorosa

Questionado sobre as possíveis consequências caso seja comprovado o emprego de recursos públicos argentinos, Edinho disse que caberá à Justiça Eleitoral avaliar a gravidade do episódio e seu impacto sobre a candidatura beneficiada.

“Poderia haver até a anulação de uma candidatura, dependendo de como a Justiça Eleitoral enquadrar o fato. Dinheiro externo usado para interferir na campanha brasileira fere nossa soberania e nossa concepção de equidade na disputa eleitoral, princípios que a legislação brasileira valoriza. Espero que o Ministério Público investigue e que a Justiça Eleitoral atue com o rigor que o caso merece”, declarou.

A Constituição impede partidos políticos de receberem recursos financeiros de governos ou entidades estrangeiras. A legislação eleitoral também estabelece regras para a arrecadação e a utilização de recursos por partidos e candidatos, justamente para preservar a igualdade da disputa e a soberania da vontade popular.

Na representação, a Federação também pede esclarecimentos sobre eventuais gastos com transporte, hospedagem, segurança e deslocamentos, além do possível uso de estruturas públicas brasileiras durante a agenda de Milei.

Ataque ao Estado brasileiro

Para Edinho, a visita não pode ser analisada apenas como uma demonstração de afinidade ideológica entre integrantes da extrema direita. Ao atacar Lula e as instituições nacionais, Milei agiu contra o Estado brasileiro e colocou em risco a relação construída historicamente entre Brasil e Argentina.

Edinho avaliou que o alinhamento ideológico entre os dois políticos e uma eventual estratégia regional podem se cruzar, mas ressaltou que o ponto mais grave foi o ataque de Milei ao Estado brasileiro, e não apenas a um partido.

Segundo ele, essa postura prejudica empresas e trabalhadores argentinos que dependem da relação comercial com o Brasil, principal parceiro da Argentina. O dirigente também afirmou que Milei tenta reproduzir a agressividade de Trump, embora nenhum dos dois represente integralmente seus povos.

“As tarifas são instrumentos para equilibrar o comércio, não para promover represálias políticas, e as grandes empresas de tecnologia não podem se transformar em ferramentas de ingerência. Os governantes passam, os países ficam. Se Milei não entende isso, não tem estatura para o cargo que ocupa”, criticou.

O petista reforçou que os brasileiros não confundem as atitudes de Milei com o povo argentino. Governos são passageiros, observou, enquanto a relação entre os países precisa ser preservada em benefício dos trabalhadores, das empresas e do desenvolvimento regional.

Ataques às urnas repetem roteiro golpista

Edinho também reagiu às novas declarações de Flávio Bolsonaro contra as urnas eletrônicas. Em reunião com embaixadores, o candidato do PL voltou a lançar suspeitas sem provas contra o sistema eleitoral brasileiro.

Para o presidente do PT, Flávio repete a estratégia utilizada por Jair Bolsonaro antes das eleições de 2022. O objetivo seria desacreditar antecipadamente o resultado das urnas e preparar o terreno para a contestação de uma possível derrota.

“Repete o mesmo roteiro de seu pai, que resultou na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023. As urnas foram auditadas por todos os organismos imagináveis e ninguém conseguiu violar sua segurança. O PT ganhou e perdeu eleições com esse sistema e nunca questionamos sua legitimidade. Por trás desse discurso há uma concepção autoritária, por isso ele é grave”, advertiu.

O sistema eletrônico brasileiro passa por diferentes etapas de fiscalização e auditoria, com participação de partidos, instituições, universidades e entidades da sociedade civil. Enquanto o PT sempre respeitou o resultado das eleições, o bolsonarismo insiste em atacar as urnas quando as pesquisas indicam a possibilidade de derrota.

Entregas do Governo Lula

Ao analisar a recuperação da aprovação do governo e o crescimento de Lula nas pesquisas, Edinho apontou as políticas públicas e os investimentos realizados desde 2023. Segundo ele, a população começa a sentir os resultados das ações do governo federal na economia, na geração de empregos, na habitação e no combate à fome.

“É o governo com o maior volume de entregas de nossa história. Tivemos mais de R$ 1 trilhão investido neste semestre no Programa de Aceleração do Crescimento, chegamos à meta de 3 milhões de moradias do programa Minha Casa, Minha Vida, somos uma das economias que mais crescem de forma sustentável entre as 20 maiores do mundo e conseguimos sair novamente do Mapa da Fome. Então, quando melhora a aprovação, melhora também nossa projeção eleitoral”, explicou.

O Brasil deixou novamente o Mapa da Fome das Nações Unidas depois que o Governo Lula retomou e ampliou políticas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos, a valorização do salário mínimo e o Plano Brasil Sem Fome.

No Minha Casa, Minha Vida, o governo atingiu com antecedência a meta inicial de 2 milhões de contratações e estabeleceu o objetivo de chegar a 3 milhões de moradias até o fim de 2026.

Políticas públicas não são “bondades”

Edinho rejeitou ainda a tentativa de setores da oposição e da imprensa de classificar as políticas do governo como um “pacote de bondades” eleitorais.

Segundo ele, não se trata da criação repentina de ações às vésperas da eleição, mas da continuidade e do aperfeiçoamento de programas já existentes. O dirigente citou como exemplo o Desenrola, criado para permitir que milhões de brasileiros renegociassem suas dívidas.

“Não são programas novos, são ajustes em programas que já existiam, como o Desenrola, programa de renegociação de dívidas. O subsídio aos combustíveis responde a uma guerra que afetou a logística mundial do petróleo, algo que ninguém poderia prever. Nós queremos que a taxa de juros caia: a inflação está cedendo, o dólar está estável e os fundamentos da economia permitem isso”, declarou.

Benefícios não podem virar privilégios

Ao tratar da situação fiscal, o presidente do PT defendeu uma revisão da qualidade dos gastos e das isenções concedidas a diferentes setores econômicos.

“É o que eu dizia: a requalificação do gasto público. Temos que pensar uma reforma do Estado e refazer a política de isenções tributárias do país. É preciso verificar quais setores ainda necessitam desse incentivo e quais não. Os benefícios fiscais não podem ser permanentes: são transitórios para setores em desenvolvimento, não privilégios eternos”, afirmou.

A proposta apresentada por Edinho diferencia o corte indiscriminado de políticas públicas de uma revisão responsável dos gastos. Em vez de retirar direitos da população pobre, o caminho passa pela eliminação de privilégios e pela avaliação dos benefícios concedidos a setores que já não precisam do apoio estatal.

“Nunca vamos produzir outro Lula”

No encerramento da entrevista, Edinho falou sobre a renovação dos quadros do PT e a formação de novas lideranças. Ele reconheceu que a transição geracional é um dos principais desafios do partido, mas rejeitou a busca por uma simples reprodução da liderança de Lula.

“É um tema que nos interpela: há um ano estou à frente do PT e uma de nossas prioridades é a transição geracional. Neste ano, impulsionamos uma política de filiação de jovens e, neste processo eleitoral, estamos incentivando candidaturas jovens para começar a renovação de nossas bancadas. Nunca vamos produzir outro Lula. Ele é um gênio surgido de condições históricas irrepetíveis: o declínio da ditadura, a ascensão dos movimentos sociais e dele próprio, um dirigente sindical que negou todo o sistema político e propôs criar um partido que representasse a classe trabalhadora emergente. Nosso desafio é que o PT esteja forte para que outras lideranças deem continuidade a esse projeto. Como diz o próprio Lula: ‘meu sucessor não será um nome, será o PT’”, concluiu.

Para Edinho, portanto, a continuidade do projeto iniciado por Lula não depende da escolha antecipada de um herdeiro individual. Depende de um PT forte, renovado e enraizado na sociedade, capaz de formar novas lideranças e seguir defendendo a democracia, a soberania nacional e os direitos da classe trabalhadora.