Em discurso na reunião do G7, as maiores potências econômicas globais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um alerta sobre o aumento da desigualdade no mundo e a falência do modelo econômico adotado nas últimas décadas. Segundo o presidente, as crises enfrentadas pelo mundo não foram acompanhadas de respostas coletivas duradouras.
“Ficamos aprisionados em dogmas que defendem desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade fiscal como fins em si mesmos”, afirmou, nesta terça-feira, 16. Lula foi um dos chefes de Estado convidados pelo presidente da França, Emmanuel Macron, a participar da reunião do G7, realizada na cidade francesa de Évian-les-Bains.
O modelo neoliberal, na visão de Lula, “agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias”. As respostas que os governos mundiais encontram, de exacerbar o nacionalismo, não são uma saída viável, refletiu. “Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”, disse.
O brasileiro destacou que a distância entre países ricos e pobres continua crescendo. Segundo ele, o primeiro trilionário do mundo possui riqueza superior à de 46% da população mundial mais pobre e essa concentração de riquezas é resultado de “décadas de políticas pró-bilionários”. Trata-se de Elon Musk, que foi chefe do Departamento de Eficiência Governamental do governo de Donald Trump.
Lula afirmou que a principal tarefa da comunidade internacional é corrigir as desigualdades de um sistema que “produz riqueza em abundância, mas distribui oportunidades de forma profundamente assimétrica”. O presidente defendeu reformas no sistema financeiro internacional, maior cooperação entre os países e mecanismos inovadores de financiamento, como a troca de dívida por investimentos climáticos e sociais.
As nações desenvolvidas, pregou o brasileiro, precisam ter maior compromisso com o financiamento do desenvolvimento sustentável e da agenda climática. De acordo com Lula, faltam cerca de US$ 4 trilhões por ano para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), enquanto a ajuda internacional registrou uma queda histórica de 23% em 2025.
“Os desafios se multiplicam, mas a solidariedade internacional encolhe”, disse. Ele citou ainda a redução dos orçamentos de organismos internacionais, como o Programa Mundial de Alimentos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o UNICEF, argumentando que os cortes afetam diretamente milhões de pessoas em países em desenvolvimento.
Ao apresentar iniciativas brasileiras, o presidente citou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, voltado à conservação ambiental, e a Aliança Global contra a Fome como exemplos de políticas capazes de reduzir desigualdades e promover o desenvolvimento.
Combate ao crime organizado, Trump como alvo
Lula declarou, ainda, que o combate ao crime organizado precisa respeitar a soberania das nações. “O desafio do crime organizado, que aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser direcionados para a construção de escolas, hospitais e estradas. Esse esforço deve levar em conta do respeito à soberania dos Estados”, ressaltou, numa referência indireta à decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de classificar as facções criminosas Primeiro Comando Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como terroristas.
“Valorizar o diálogo e a cooperação institucional, inclusive por meio da INTERPOL, contribuirá para a localização de ativos e indivíduos vinculados a essas atividades criminosas”, destacou o presidente. Especialistas em segurança pública alertaram que a decisão de Trump em relação às facções pode, no dia a dia, dificultar a troca de informações de inteligência entre governos e também poderá gerar reflexos negativos para o sistema financeiro e empresas que, indiretamente, se envolvam com alguma transação oculta do crime organizado.
Ele também defendeu o acesso de tecnologias de ponta aos países em desenvolvimento e a participação dos detentores de minerais críticos, como é o caso do Brasil, não apenas como exportadores de matéria-prima, mas também no aproveitamento dos recursos.