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Renan Santos, Zema e Flávio Bolsonaro: os candidatos anti-mulheres

Em recentes entrevistas e sabatinas, candidatos, que precisam do voto feminino, tentam justificar posições machistas e misóginas que reforçam a visão que carregam sobre a mulher

Foto: Lorena Fadul

As recentes declarações de candidatos à Presidência da República da direita e extrema direita em sabatinas e entrevistas, e de aliados relevantes do entorno desses políticos, reforçam a postura misógina e a visão machista que eles têm sobre as mulheres. Em ano de eleição, a extrema direita pede o voto das mulheres, que são maioria do eleitorado brasileiro (52%), mas quer mantê-las longe do poder, reduzir direitos e até mesmo questionar o direito ao voto feminino.

O senador presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem um histórico recorrente de posições que reforçam a visão da família Bolsonaro, colecionadora de declarações misóginas e preconceituosas. Durante o anúncio de sua candidatura à Presidência, afirmou que teve duas filhas para que cuidassem dele na velhice. A declaração reduz as mulheres ao papel de cuidadoras e trata essa responsabilidade como algo naturalmente feminino.

“Na grande parte das vezes, quem tem que tomar conta dos idosos são as mulheres. Eu fiz duas filhas exatamente para isso. Quando eu ficar velhinho, eu vou ter quem vai tomar conta de mim, porque as mulheres são assim: são família, são coração, são sentimento, são sensibilidade.”

Em 2021, Jair Bolsonaro afirmou que a equiparação salarial poderia deixar muitas mulheres desempregadas e defendeu que elas ganhassem menos por terem direito à licença-maternidade e faltarem ao trabalho para cuidar dos filhos doentes. Também se referiu à própria filha de forma machista, dizendo que teve quatro filhos homens e a quinta nasceu mulher após uma “fraquejada”.

No mesmo caminho do pai, Flávio Bolsonaro, o filho 01, votou a favor do projeto que criminaliza a misoginia, mas depois se arrependeu e declarou que a votação havia sido “uma armadilha do PT”.

O discurso de ódio às mulheres encontra ecoa também entre seus aliados. Paulo Figueiredo, aliado de primeira hora da família Bolsonaro, afirmou que “mulher vota muito mal”, atacando diretamente a capacidade de decisão política das mulheres. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), classificou como “aberração” o projeto que criminaliza a misoginia, enquanto que o candidato à reeleição para o governo mineiro, Romeu Zema (Novo-MG), defendeu que apenas homens beneficiários do Bolsa Família fossem qualificados profissionalmente porque as mulheres teriam “outras atribuições em casa”. Até mesmo Michelle Bolsonaro, em um dos embates mais explícitos dentro da  família, afirmou ter sido desrespeitada por Flávio. Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), defensor de Flávio Bolsonaro, reduziu drasticamente o orçamento das políticas públicas de proteção para as mulheres.

Todos esses exemplos refletem uma mesma lógica: a extrema direita precisa das mulheres como eleitoras, mas recorre ao machismo e à misoginia para deslegitimar suas escolhas, restringir sua autonomia, reforçar papéis tradicionais e silenciar seu protagonismo nos espaços públicos.

Ataques à primeira-dama

Durante o debate da TV Bandeirantes, o candidato à Presidência Renan Santos (Missão), atacou a primeira-dama Janja, responsabilizando-a pela ausência do presidente Lula. Renan afirmou que o petista havia preferido ficar com “aquela Janja” e que, no debate, poderia encontrar “companhias melhores”.

Em outro momento, Renan Santos voltou a mencionar a primeira-dama ao dizer que Lula poderia estar “bêbado ou com a Janja”, acrescentando que seria “melhor ficar bêbado”. Em função de seus ataques, o candidato é alvo de uma notícia-crime no Ministério Público Eleitoral que solicita que as declarações sejam analisadas sob a suspeita de injúria eleitoral e menosprezo ou discriminação à condição de mulher. A campanha do presidente Lula também acionou o Tribunal Superior Eleitoral contra as ofensas e calúnias.

O repertório misógino do candidato do Missão é extenso. Durante entrevista concedida à GloboNews, Renan Santos foi questionado pelas jornalistas Andrea Sadi e Natuza Nery sobre um vídeo em que afirma ser machista. Em sua resposta, ele negou defender o machismo e disse que a declaração foi uma provocação.

“A questão central é restabelecer uma autoridade masculina que esteja próxima do rapaz, estabelecendo limites e exemplo.” Renan também declarou que “a maior parte dos casos de rapazes que cometem crimes vem de famílias em que o pai não está presente.”

Renan Santos ignora a realidade das mulheres brasileiras. De acordo com a Fundação Getúlio Vargas, 52% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, que lutam para alimentar e cuidar de seus filhos, por abandono paterno.

Em 2022, o aliado de Renan Santos, então deputado estadual Artur do Val (Podemos-SP), conhecido como “Mamãe Falei”, teve seu mandato cassado depois do vazamento de áudio em que declarava que “as mulheres ucranianas são fáceis porque são pobres”. A declaração foi feita quando Artur do Val estava em viagem à Ucrânia onde foi arrecadar doações para refugiados ucranianos, após a invasão da Rússia. Questionado sobre essa afirmação do amigo na sabatina da Rede Globo, Santos disse apenas que “foi infeliz”.

Gafe ou ato falho?

Romeu Zema, durante entrevista ao Jornal Nacional, disse que “tem uma série de programas contra as mulheres“, quando indagado sobre seus projetos de combate à violência de gênero. Para lideranças femininas de Minas, não se trata de um ato falho do ex-governador. 

Essa não é a primeira vez que o candidato diminui a importância das mulheres. Em 2021, ele defendeu que seja exigida qualificação profissional apenas dos homens beneficiários do Bolsa Família, sob o argumento de que as mulheres teriam “outras atribuições em casa”.

Disse também que as mulheres, após o término do relacionamento, ficam obecadas em perseguir os homens. Declarou também, em 2024, que a violência doméstica faz parte do instinto humano. Nada muito surpreendente para um candidato que, também, já defendeu que crianças menores de idade possam trabalhar.

Nikolas Ferreira: “Aberração” 

Quando o assunto é criar mecanismos para enfrentar o ódio contra as mulheres, a resistência da extrema direita se levanta, na tentativa de convencer que diminuir, deslegitimar ou julgar mulheres é liberdade de expressão. O Brasil discute uma lei que criminaliza a misoginia, e a matéria é alvo da extrema direita, que sustenta a tese de “censura”, com a insinuação de que a iniciativa seria “ideológica”.

O deputado federal Nikolas Ferreira chegou a classificar a matéria como “aberração”. A posição mostra outro obstáculo ao protagonismo feminino: quando mulheres reivindicam o direito de viver sem violência e de contar com instrumentos para enfrentar o ódio de gênero, a própria necessidade de proteção é questionada.

Tarcísio: 18 centavos por mulher

Em São Paulo, a distância entre a gravidade da violência contra as mulheres e a prioridade dada pelo governo está estampada no orçamento. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) destinou, no orçamento de 2025, 18 centavos por mulher para o enfrentamento da violência de gênero, considerando cidadãs entre 15 e 59 anos, por meio da Secretaria de Políticas para a Mulher.

O dado contrasta com um cenário alarmante: no ano passado, 266 mulheres foram vítimas de feminicídio em São Paulo. Foram registrados ainda 13.355 casos de estupro e cerca de 96 mil medidas protetivas de urgência concedidas.

Criada em 2023, a Secretaria de Políticas para a Mulher figura entre as áreas com menor previsão orçamentária do Estado. Em vez de reforço diante dos números, a resposta do governo foi oposta: enviou para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) uma proposta de redução de 54,4% nos recursos da pasta para 2026.

Paulo Figueiredo: mulher não sabe votar

A tentativa de desqualificar a participação feminina chega também ao exercício do voto. Um dos principais porta-vozes do bolsonarismo no exterior e aliado de primeira hora da família Bolsonaro, o influenciador e empresário Paulo Figueiredo afirmou que “mulher vota muito mal”. Em transmissão nas redes sociais, sustentou que mulheres, especialmente as solteiras, seriam incapazes de fazer boas escolhas políticas.

Depois, dobrou a aposta: “Deixa eu me retratar: Mulher não vota muito mal, mulher vota mal para cxxxxxx”, escreveu nas redes sociais.

Figueiredo também atacou as mulheres que o criticavam, dizendo que elas poderiam “arrancar os pentelhos das calcinhas”, e afirmou que estariam enganadas pelo que chamou de “ideologia demoníaca feminista”, que estaria destruindo suas vidas.

O ataque explicita uma contradição: a mulher é importante enquanto eleitora, mas sua capacidade de decidir e fazer escolhas políticas é desqualificada quando não corresponde ao que esse campo político espera.

Igualdade é coisa séria

A coordenadora da bancada feminina da Câmara dos Deputados, Jack Rocha (PT-ES), lembra que a extrema direita precisa do voto das mulheres, mas não respeita seus direitos.

“São as mulheres brasileiras que estão sendo combatidas por uma ideia de terem acesso a direitos, direito à sua liberdade, de denunciar quem fere com discurso de ódio e uma falsa liberdade de expressão para promover a desumanização das mulheres”, denuncia.