Benedita da Silva (*)
Decidido a transformar toda a América Latina em quintal dos EUA, o autoritário presidente Trump investe agora contra as eleições no Brasil, visando colocar na Presidência da República alguém subordinado aos interesses da potência norte-americana.
Para esse papel de traição nacional, presta-se o candidato do clã Bolsonaro, que aplaudiu o primeiro tarifaço de Trump contra o Brasil na esperança de jogar o povo contra o presidente Lula. Mas, ocorreu o contrário. A grande maioria da população (72%) rejeitou o tarifaço, e Lula reagiu com altivez em defesa de nossa soberania, sem deixar de negociar uma significativa redução das tarifas, demonstrando tecnicamente que eram os EUA que mais se beneficiavam do comércio com o Brasil.
Como nem o tarifaço de 2025 nem a aplicação da chamada Lei Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes conseguiram abalar a aprovação do presidente Lula, o presidente Trump decidiu classificar, unilateralmente e sem a concordância do governo brasileiro, as facções criminosas PCC e Comando Vermelho como “terroristas”.
Segundo a ONU, uma organização terrorista visa objetivos ideológicos extremistas e religiosos, o que não é o caso das facções criminosas, que praticam seus crimes com o objetivo de obter o máximo lucro.
Essa classificação como organizações terroristas não ajuda no enfrentamento internacional ao crime organizado, pois esvazia a atual cooperação entre as polícias brasileiras ao transferi-la para a esfera militar e para a intervenção norte-americana, por motivos exclusivamente políticos.
Vale destacar que nada disso afeta realmente o chamado “andar de cima” do crime organizado, que mantém conexões estreitas com o mercado financeiro e com setores corrompidos da política. O governo tem demonstrado, por meio de operações integradas e de inteligência da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal, da Receita Federal e das polícias estaduais, como a Operação Carbono Oculto, que esse é o único meio de prender os “cabeças” e sufocar o esquema financeiro que dá força a essas facções.
Mas, ao lado da classificação de “narcoterrorismo”, Trump também anunciou uma nova onda de tarifas contra a economia brasileira. Embora defenda o tarifaço contra o próprio país, o pré-candidato da extrema direita sabe, pelo caso anterior, que isso se volta contra sua própria campanha eleitoral.
Ele toma, então, uma decisão ainda mais desastrosa e vai ao Departamento de Comércio dos EUA tentar negociar não o fim das tarifas, como já vem fazendo o governo brasileiro, mas o adiamento do tarifaço para depois das eleições. Com isso, Flávio Bolsonaro deixa evidente que não se importa nem com o povo nem com a economia brasileira. Inclusive, aceita negociar o fim do PIX, a entrega das terras raras, o etanol, a Amazônia e liberdade sem responsabilidade para as big techs, como exige Trump.
Nem mesmo 43 grandes empresas norte-americanas com interesses no Brasil aceitam o tarifaço de Trump. A intervenção de oportunismo eleitoral de Flávio Bolsonaro nos EUA também foi repudiada pela Faria Lima e por grandes jornais conservadores brasileiros, que seriam sua base política. Sem dúvida, foi mais um grande tiro no pé, o que parece ser a especialidade desse clã.
Contra esse entreguismo desenfreado da extrema direita, Lula continua firme, liderando a maioria do povo em defesa da soberania nacional. Conforme suas palavras: “a Pátria não está à venda. Nossa soberania é inegociável. O Brasil é dos brasileiros”.
(*) Deputada Federal PT/RJ
Artigo originalmente publicado no Brasil 247