O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta terça-feira, 19, em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, que a identificação de indícios de fraude no Banco Master ocorreu no prazo mais rápido da história da autarquia. A declaração reforça que, sob o governo do presidente Lula, os órgãos de Estado agiram de forma técnica e célere diante de suspeitas envolvendo a instituição financeira de Daniel Vorcaro, personagem que passou ao centro da crise política após a divulgação de áudio em que aparece negociando repasses milionários com Flávio Bolsonaro.
“O que nós fizemos em três meses? Três meses é a identificação mais rápida da história do Banco Central de uma potencial fraude. […] Em seis [meses], a comunicação estava no Ministério Público”, disse Galípolo.
Na audiência, Galípolo explicou que os sinais de alerta apareceram logo no início de 2025, quando o Master intensificou a captação no varejo usando o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como atrativo. O comportamento chamou a atenção da fiscalização porque, segundo ele, um banco com dificuldade de liquidez normalmente vende carteira, e não forma novas carteiras.
“Essa renda de carteira logo em janeiro chama a nossa atenção. Porque o que acontece é: se você tem um banco com dificuldade de liquidez, você não forma carteira. Se você tá com dificuldade de dinheiro, você vende carteira. Aí tudo bem, mas como é que você tá vendendo uma carteira nova? Foi isso que chamou a atenção do Banco Central imediatamente”, explicou.
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Alerta em janeiro e investigação em ritmo acelerado
Galípolo relatou que, ainda em janeiro de 2025, foi constituído um grupo específico dentro da Diretoria de Fiscalização do Banco Central para acompanhar o caso. A partir dali, a apuração avançou até que os técnicos passaram a encontrar dificuldades para comprovar a existência efetiva das carteiras apresentadas pelo banco.
“É constituído um grupo específico dentro de janeiro de 2025 dentro da diretoria de fiscalização”, disse. “A partir de três meses, que é quando efetivamente o diretor de fiscalização fala: ‘Olha, nós estamos encontrando dificuldades de ter a evidência de que aquela carteira realmente ocorreu…’ E aí se intensifica a partir de diálogos, inclusive com o Ministério Público”.
O presidente do BC também afirmou que a Polícia Federal foi comunicada desde as primeiras descobertas, diante da delicadeza do caso. Segundo ele, a autoridade monetária entendeu que precisava manter tanto a PF quanto o Ministério Público informados sobre a evolução das apurações.
“A primeira comunicação a partir das primeiras descobertas é feita à Polícia Federal. A gente comunica imediatamente a Polícia Federal porque a gente sabia da delicadeza… a gente precisava tá sempre informando o Ministério Público e a Polícia Federal”, afirmou.
A atuação rápida contrasta com a narrativa bolsonarista de tentar empurrar responsabilidades para o governo Lula. O que a audiência evidenciou foi o oposto: o Banco Central identificou sinais de irregularidade, criou uma estrutura específica de investigação, comunicou os órgãos competentes e impôs restrições ao Master.
Galípolo também comentou a percepção do próprio Daniel Vorcaro de que o Banco Central havia apertado o cerco sobre o Master. Segundo ele, o banqueiro afirmou em depoimento ao Supremo Tribunal Federal que, no último ano, sentia-se quase sob um regime especial de administração, tamanha a pressão regulatória sobre o banco.
Como salientou o líder do Governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), a gestão de Galípolo observou critérios técnicos de governança, diferentemente do que se observou sob Roberto Campos Neto, o presidente do BC indicado por Bolsonaro. “Durante quatro anos se teve uma paciência exagerada com esse banco, que só se encerrou quando Galípolo sentou na Presidência do Banco Central”, disse.