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‘Tarifaço não é questão puramente econômica: é projeto político que mira eleições’

Ecossistema da desinformação, bem estruturado no governo Bolsonaro, foi interrompido com vitória de Lula. Mas permanece ativo, em operação, e o Brasil é fundamental

Foto: Arte: João Firpe

Por Eliara Santana (*)

Mais do que um ataque à economia ou à eleição deste ano, a imposição de novo tarifaço pelos EUA a produtos brasileiros é uma ação coordenada de interferência nos rumos políticos do país. Não é algo momentâneo, localizado, tampouco desarticulado ou atabalhoado. É uma interferência calculada mascarada por uma questão comercial, econômica.

Desde 2018, o Brasil é um país muito relevante para a arquitetura mundial de desinformação da extrema direita. De um lado, porque conquistou, ao longo dos governos petistas, um lugar de destaque no cenário geopolítico mundial e econômico. De outro, porque implantou, com o advento do governo Jair Bolsonaro, um bem estruturado ecossistema de desinformação, com um gabinete do ódio atuante na pandemia e depois, um núcleo de desinformação eleitoral e um laboratório de realidade paralela.

Com a derrota daquele governo em 2022, o projeto foi parcialmente interrompido, mas não eliminado. Para a extrema direita, sobretudo a trumpista, reposicionar esse projeto da extrema direita brasileira é um objetivo muito importante no rol da disputa de poder.

E é exatamente nesse cenário mais amplo que se situa a recente investida do governo Trump, em consonância com apelos e pedidos do núcleo extremista brasileiro, com o novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros.

Há uma questão econômica relevante, sem dúvida, que fica mais visível pelo incômodo gerado pelo Pix, o sistema brasileiro de pagamento, que impacta as empresas de cartão de crédito norte-americanas. Mas, como salientou o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, o governo norte-americano aplicou as tarifas porque o Brasil “não se curvou” às exigências de Donald Trump. Exigências essas que não são meramente comerciais.  

Vale relembrar, nesse momento, o que apontou, em dezembro de 2025, o relatório “Desafios de Inteligência 2026”, da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). O documento chama atenção, explicitamente, para o risco real de interferência externa para as eleições deste ano. E interferência essa baseada e fundamentada na arquitetura da desinformação, que envolve não somente as campanhas coordenadas e permanentes, mas também o financiamento não explicitado, ou seja, oculto, de grupos extremistas. 

Portanto, voltando ao tarifaço, a economia não é o cerne absoluto da disputa. Ela é um aspecto, claro, mas não é o ponto central. Os aspectos centrais e complementares são  a autonomia do Brasil e a necessidade de fortalecimento da extrema direita. E para atacar esses pontos sem que fique claro que eles são os alvos, a desinformação é essencial.

Ela não é um detalhe, um arranjo, uma brincadeira, uma estratégia para produzir mentirinhas ou memes. A desinformação envolve uma robusta arquitetura de poder. E em relação aos ataques à soberania, como já discutimos neste espaço, há estratégias bem específicas de interferência e ataques: produção e disseminação de notícias falsas e construção de manipulações que se espalham e enfraquecem as leis, promoção da divisão da população, interferência nos processos eleitorais de um país.

Todo esse conjunto faz com que o país sob ataque perca o controle sobre a verdade e a segurança dos cidadãos, o que cria um estado de caos e insegurança informacional. Esse conjunto  constitui uma ameaça real e está ocorrendo em relação ao Brasil.

Mas quero avançar um pouco mais na compreensão dessa arquitetura e me ater a um outro ponto, que fere de morte não somente a soberania de um país, mas a democracia como um todo. Me refiro ao uso da desinformação como arma política letal, cujo desenvolvimento se dá com base em dois aspectos principais:

  • a) consolidação de um ecossistema de desinformação nacional, com ramificações pelo território e inúmeras estratégias, e;
  • b) a construção de uma interface internacional.

A decisão recente dos EUA em relação ao tarifaço reflete exatamente esse combo. Não é e nunca foi uma questão puramente econômica. Trata-se de um projeto político muito claro, que mira no processo eleitoral e extrapola fronteiras.

E aqui vou insistir novamente na compreensão de que o conceito de desinformação não pode ficar restrito ao âmbito das fake news e que deve ser considerado sob três elementos muito relevantes: a intencionalidade, o falseamento da realidade (produção de uma realidade paralela) e o caráter não aleatório das ações.

O alcance da desinformação sistematizada impacta seriamente o funcionamento democrático e institucional, pois é capaz de ressignificar e recategorizar aspectos da realidade, construindo novos sentidos para fenômenos políticos, históricos e econômicos que levam os cidadãos a considerarem como factíveis realidades paralelas.

Como arma política usada em relação especificamente a ataques à soberania nacional, a orquestração desinformativa é colocada em cena em três grandes frentes:

Promoção de confusão e caos : Informações falsas deixam as pessoas confusas, com medo e descrentes de qualquer ação institucional.

Ações estrangeiras coordenadas: grupos e instituições de fora podem usar diversas estratégias que interferem na opinião pública nacional.

Poder transnacional das Big Techs: empresas gigantescas presentes em vários países, elas resistem à regulamentação local e criam para isso subterfúgios discursivos, como a falácia da “liberdade de expressão” – o caso de Elon Musk e a saída do X do Brasil, em 2025, num embate com o STF e o ministro Alexandre de Moraes, exemplifica a questão.

No contexto dos ataques coordenados, é também importante compreender que as manifestações viralizantes e aparentemente estapafúrdias são apenas as pontas que aparecem e roubam a atenção – e nesse quesito temos alguns exemplos, como o vídeo de Eduardo Bolsonaro defendendo a adoção do “Pix norte-americano”, o Zelle, ou o tema do combate às organizações criminosas e a denominação de organizações terroristas ao PCC e ao Comando Vermelho, narrativa bem construída e impactante.

São assuntos relevantes, claro, mas refletem aquilo que mostra a ilustração do iceberg, em que somente as pontas pequenas aparecem sem revelar todo o conjunto arquitetônico que fica submerso. 

Ainda nesse contexto recente do tarifaço, vale chamar a atenção para a estratégia de ataques diretos para minar a credibilidade e atrair para um embate improdutivo – como fez Marco Rubio, secretário de Estado do governo Trump, ao atacar de modo deselegante o presidente Lula, tentando atraí-lo para um bate-boca infrutífero e esvaziar o discurso fundamental de defesa da soberania.

Em relação a esse aspecto, a diplomacia brasileira está brilhando porque não escorregou em nenhuma casca de banana, ou seja, não comeu a isca e discutiu com Rubio, cujas provocações seguem um enredo já manjado. 

Na realidade atual de uso da desinformação como arma política poderosa, é fundamental entender que o ecossistema não desaparece com o fim de um processo eleitoral. Ele permanece ativo e em operação.

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).