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Formação sem fronteiras: diáspora petista se prepara para 2026 em encontro que conectou 3 continentes

Encontro de Formação dos Núcleos do PT no Exterior + Partido Democrático Italiano — 16 de maio de 2026. Organização: núcleos do PT Roma, Bologna, China, Lisboa, Alemanha, Boston, Barcelona, Valencia, Secretaria de Relações Internacionais do PT, Instituto Lula e Escola Nacional de Formação Política do PT. Foto: SRI-PT

Por volta das nove da manhã no horário de Brasília — tarde na Europa, noite na Ásia — militantes de mais de dez países reuniram-se para debater e analisar o cenário político internacional, o combate à extrema direita e a organização da militância brasileira fora do país

Realizado em 16 de maio, o encontro articulou diferentes dimensões da militância política contemporânea — da geopolítica internacional às redes sociais, da memória democrática à experiência concreta dos brasileiros que vivem fora do país. Ao longo de quase três horas de formação, o debate reuniu dirigentes partidários, intelectuais, representantes internacionais e integrantes dos núcleos petistas espalhados pelo mundo em torno de uma ideia comum: fortalecer uma rede democrática internacional diante do avanço global da extrema direita.

A iniciativa forma parte de um ciclo formativo planejado pela Secretaria de Relações Internacionais (SRI) em parceria com a Fundação Perseu Abramo e a Secretaria Nacional de Formação. O encontro foi organizado pelos núcleos no exterior, com foco na preparação para a campanha eleitoral de 2026.

“As diferenças entre nós são menores do que nossas lutas”

A abertura do encontro foi feita pela secretária adjunta de Relações Internacionais do PT, Misiara Oliveira, com uma mensagem direcionada a militância:

“As eleições de 2026 no Brasil talvez sejam as eleições mais importantes da história do nosso país, da nossa democracia, da democracia da América Latina e da democracia mundial de todos aqueles que acreditam em justiça social no mundo”, disse ela.

Em seguida, a secretária adjunta abordou a conjuntura internacional, contribuindo com detalhes a respeito das interferências externas nas eleições de Honduras, Argentina e Colômbia; a política de cerco contra Cuba; a operação contra o presidente Maduro na Venezuela; e o que ela chamou de “escândalo BolsoMaster” — a relação investigada entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master — como possível fonte de financiamento de operações de comunicação da extrema direita nas redes sociais brasileiras.

E, no encerramento de sua fala, a secretária adjunta disse o que o encontro precisava ouvir: “Toda e qualquer diferença entre nós, nesse momento, é menor frente à tarefa que nós temos, que é reeleger o nosso projeto, reeleger o presidente Lula.” E concluiu com uma palavra de ordem que atravessaria as três horas seguintes: “Unidade.”

 

Aliança internacional contra a extrema direita

Um dos pontos centrais do encontro foi o fortalecimento da articulação entre o PT e forças progressistas internacionais, especialmente o Partido Democrático Italiano.

O deputado italiano Fábio Porta ressaltou a importância de construir uma frente democrática internacional capaz de responder ao crescimento da extrema direita na Europa, na América Latina e nos Estados Unidos.

Ao recordar encontros recentes entre lideranças progressistas em Barcelona e Brasília, Porta afirmou que “o que nos une é muito maior do que o que nos divide”, defendendo unidade entre partidos, movimentos sociais e organizações democráticas diante de uma conjuntura global marcada por discursos autoritários, ataques a direitos sociais e avanço de projetos ultraconservadores.

A ideia de internacionalização da disputa política apareceu de forma recorrente ao longo da atividade. Mais do que acompanhar a política brasileira à distância, os núcleos do exterior foram apresentados como espaços estratégicos de articulação, comunicação e incidência internacional.

Comunicação, redes e disputa de narrativa – a rede que espalha

A dimensão da comunicação política ganhou destaque na apresentação de Paulo Okamoto, diretor do Instituto Lula, que apresentou a estratégia do projeto “Pode Espalhar”.

A lógica é simples e o alcance, ambicioso: uma coordenação formada pelo partido, pela Câmara, pelo Senado, pelo governo e pela pré-campanha define as pautas com base em monitoramento e pesquisa. Equipes de relacionamento conversam com parlamentares, vereadores e dirigentes estaduais. O material produzido — para WhatsApp, Instagram e Facebook — não terá identificação partidária, podendo ser apropriado e replicado por qualquer agente da rede. A proposta combina produção de conteúdo, formação militante e articulação nacional em plataformas digitais, buscando enfrentar campanhas de desinformação e fortalecer a presença progressista nas redes. A lógica, segundo ele, é atuar em “rede e rua”, articulando comunicação digital e mobilização concreta.

“Fazer política é disputa de narrativa, é criar opinião pública”, resumiu Okamoto. O projeto inclui ainda formação sobre atuação em redes sociais e, como novidade, incorporará a rede pessoal do presidente Lula — até então restrita ao uso governamental — ao ecossistema do Pode Espalhar.

Também foi destacada a importância da atuação internacional nesse processo. Leandro Corrêa, assessor da SRI-PT e secretário executivo dos núcleos,  destacou o papel da militância internacional na circulação de conteúdos no exterior, seja traduzindo a mensagem diferentes idiomas ou entregando o conteúdo a imprensa e instituições aliadas no exterior, ampliando o alcance internacional das pautas brasileiras e das ações do governo Lula.

O debate sobre comunicação esteve diretamente ligado à preocupação com inteligência artificial, fake news e manipulação algorítmica — temas que apareceram em diferentes falas como parte da nova arquitetura global da extrema direita.

A crise que não é nova — mas ficou mais perigosa

Professor da Universidade Federal do Ceará e pesquisador das direitas contemporâneas, Fábio Gentile apresentou uma análise sobre a crise da ordem internacional e o crescimento da extrema direita.

Em uma fala que conectou Europa, Estados Unidos e América Latina, Gentile argumentou que o mundo vive uma transição entre o antigo modelo unilateral liderado pelos EUA e uma nova configuração multipolar, marcada por disputas geopolíticas mais complexas.

Nesse cenário, afirmou, a América Latina volta a ocupar posição estratégica, não é apenas importadora de ideias — é um laboratório político que também exporta modelos. “Existe uma relação muito forte entre América Latina e Europa. A América Latina pode elaborar modelos políticos que depois serão utilizados em países da Europa ou nos Estados Unidos.”

Ao analisar o avanço de governos autoritários e movimentos ultraconservadores, o pesquisador apontou que “a verdadeira disputa do nosso tempo é entre democracia e autoritarismo”, relacionando neoliberalismo, desinformação e radicalização política.

Gentile também destacou o papel do governo Lula na defesa do multilateralismo e da soberania nacional, associando o Brasil a uma agenda internacional voltada à cooperação, à integração regional e à reconstrução democrática.

Lawfare, medo e erosão democrática

Um dos momentos mais densos do encontro foi a intervenção da professora Marisa Barbato, jurista e coordenadora do Partido Democrático Italiano na América do Sul.

Sua exposição abordou o conceito de lawfare — o uso estratégico do sistema de Justiça como instrumento de disputa política — relacionando experiências latino-americanas, vigilância digital, guerra informacional e erosão democrática.

“Há épocas em que a democracia é atacada pela força. E há épocas em que ela é corroída lentamente por dentro, às vezes mantendo quase intactas as aparências de normalidade”, disse ela.

A professora relacionou o tema a episódios recentes da política brasileira, como a Operação Lava Jato e o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, além de conectar o debate à ascensão global de formas contemporâneas de controle social baseadas em plataformas digitais, algoritmos e manipulação emocional.

“O medo continua sendo uma das forças políticas mais poderosas da história”, disse, ao defender a importância das garantias constitucionais, do devido processo legal e da memória democrática.

Recuperou a tradição antifascista europeia para reforçar a necessidade de vigilância democrática permanente já nunca foi um “presente dado pelos poderosos”. E, citando Gramsci, finalizou: “A indiferença é o peso morto da história.”

Cultura, memória e identidade da diáspora

A programação também abriu espaço para manifestações culturais. Ana Lee, artista, professora e militante do Núcleo de Barcelona e do Comitê Lula Presidente Barcelona, natural de Belo Horizonte, apresentou músicas, vídeos e performances que conectaram arte, política, memória democrática e migração. Encerrou com uma composição própria sobre imigração — misturando português e espanhol, evocando pássaros migrantes e pessoas que se movem pelo mundo — em homenagem, nas suas palavras, “a todos nós que somos imigrantes.”

Política externa e resistência global

Bruno Fenerick, analista internacional e membro da coordenação do Núcleo de Roma na área LGBT, apresentou a política externa petista como forma concreta de resistência ao cenário global de crise. Distinguindo as duas grandes tradições diplomáticas brasileiras — o americanismo e o universalismo —, argumentou que os governos Lula e Dilma representam o auge da segunda: multilateralismo, cooperação Sul-Sul, integração regional pela cultura e pela educação, participação ativa nos BRICS, UNASUR, CELAC e ALBA. “A política externa brasileira do PT é a resistência nesse cenário global”, afirmou. “O Trump tentou deslegitimar as organizações internacionais. O Lula, ao contrário, vem sempre fortalecer o multilateralismo, fortalecer os BRICS, fortalecer os regimes internacionais.”

Cristiane Granha, militante do PT desde 1989 e coordenadora de formação do Núcleo de Boston, trouxe a análise de fôlego teórico do encontro — e também pessoal ao relatar sua disputa no PT Rio de Janeiro e sua liderança no comitê que busca justiça pelo assassinato de Anderson Luiz, liderança negra do setor de laticínios morto há vinte anos. Sua análise partiu de Marx e Lenin para chegar ao capital financeiro contemporâneo, à guerra híbrida e ao fascismo como expressões da contra-revolução. Mas foi na resistência que encontrou o dado mais animador: o 1º de Maio de 2026 nos Estados Unidos, com 5 mil atividades organizadas pela plataforma “1º de Maio Forte”, e a Palestina como eixo simbólico de todas as manifestações. “Mesmo sem uma internacional, a classe mostra a sua consciência internacional se recompondo”, afirmou. Cristiane anunciou ainda o “Encontro das Américas”, evento online do Núcleo de Boston marcado para 6 de junho.

Brasileiros no exterior e cidadania – os Núcleos falam

De Coimbra, Pedro — do Coletivo Vozes, junto com Thiago e Anely — relatou a agenda de organização para 2026, com foco em digitalização, trabalho de base e uma plenária virtual planejada para 7 de junho.

Leandro, da SRI, saudou o encontro como o início de um ciclo: “Foi fundamental nivelar o debate do que vai ser esse ano para as eleições. E vamos seguir em contato com a Tássia e demais instâncias para proseguir esse processo durante o ano eleitoral.”

Regênia, com poucas palavras, disse o que talvez resumisse melhor o espírito do dia: “Sonho que se sonha só pode ser pura ilusão. Sonho que se sonha juntos é sinal de solução.”

A última fala foi de Nani — do Núcleo de Valência, que compartilhou um vídeo do encontro de mulheres realizado na cidade, com a presença de Janja da Silva — e ficou no ar como um encerramento que era também um começo: “A verdadeira força do mundo não está na mão de quem acumula riqueza. Está nas nossas mãos, que construímos vida todos os dias.” E, sobre o poder das mulheres organizadas: “Quando muitas mulheres se levantam juntas, a gente realmente vai romper as estruturas de poder do mundo.”

Gislaine, coordenadora do Núcleo de Roma e mediadora do encontro, agradeceu a todos os núcleos participantes — Portugal, Bolonha, Boston, Barcelona, Valência, Alemanha e China —, à SRI, ao Instituto Lula e à Escola Nacional de Formação, antes de encerrar com uma frase simples: “2026 vem aí.”

Uma rede política internacional para 2026

A SRI, em articulação com a Escola Nacional de Formação e a Fundação Perseu Abramo, comprometeu-se com a continuidade do ciclo formativo voltado especificamente para os núcleos do exterior — com formações práticas sobre comunicação digital, conjuntura eleitoral e organização territorial, além de uma formação de formadores presencial, anunciada por Tássia Rabello como meta do período.

O que o encontro deixou claro, acima de tudo, é que os núcleos do PT no exterior não são apêndice da política brasileira: são sujeitos políticos ativos, com agenda própria, conexões reais com partidos, sindicatos e movimentos sociais em seus países, e um papel que vai muito além do voto.

Marta Dueñas – jornalista e membra do núcleo de filiados ao PT em Barcelona