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Carne de burro na Argentina, fila do osso no Brasil: retratos do arrocho da ultra direita

Pré-candidato ao Planalto, senador do PL endossa políticas de Javier Milei, enquanto país vizinho convive com desemprego, fechamento de empresas e fome

Receituário neoliberal imposto por Milei na Argentina está gerando desemprego e fome.Foto: Télam

O presidente da Argentina, Javier Milei, desembarcou no Brasil nesta quinta-feira, 23, para participar da Convenção Nacional do PL, prevista para sábado, 25, quando o senador Flávio Bolsonaro deve oficializar sua candidatura à Presidência da República. As afinidades entre Milei e a família Bolsonaro vão além do espectro político a que pertencem, a ultradireita. Flávio endossa abertamente o arrocho neoliberal que vem empobrecendo os argentinos há três anos, prenúncio de seus planos para a economia brasileira caso seja eleito em outubro.

Milei é tido como um baluarte do neoliberalismo entre representantes do mercado financeiro e empresários por ter conseguido reduzir significativamente a crônica inflação na Argentina. Mas o custo para controlar os preços da maneira como o extremista de direita vem fazendo, entretanto, incide diretamente sobre as empresas e a economia do país. Dados divulgados pelo jornal local La Nación dão a dimensão das dificuldades enfrentadas pela população.

Desde novembro de 2023, mês anterior à posse de Milei como presidente, mais de 26 mil empresas fecharam as portas. O desemprego na Argentina, que não para de subir, está batendo na casa dos 8%, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), enquanto a informalidade salta para mais de 44%, um forte recuo das vagas com carteira assinada.

Entre os setores da economia argentina que mais perderam, destacam-se: Comércio (-1.042 empresas fechadas), Indústria (-320), Transporte e armazenamento (-280) e Alojamento e restaurantes (-200).

Há três semanas, durante discurso na abertura da Latin America Chairmen’s Conference, evento da comunidade judaica global, em Buenos Aires, Flávio Bolsonaro teceu elogios a Milei e à política de austeridade econômica dele:

“O presidente Milei tem razão. O socialismo é um modelo empobrecedor, e vou confessar um sentimento muito honesto: nós, brasileiros, olhamos esse mapa hoje com um pouco de inveja”.

Carne de burro na Argentina, fila do osso no Brasil

Enquanto o governo do pai de Flávio, o ex-presidente Jair Bolsonaro (2018-2022), está marcado por pessoas em fila para conseguir ossos, a fome e a insegurança alimentar que assolam a Argentina atualmente têm obrigado o país vizinho a aderir a hábitos nada comuns de alimentação: comer carne de burro e de lhama.

Em março, a inflação anual de carnes e derivados na Argentina atingiu 55,1%, o maior nível desde abril de 2025. Segundo o Indec, o preço médio da carne moída comum na Grande Buenos Aires acumula alta de mais de 6o% em 12 meses.

Além disso, o consumo de carne bovina recuou 11% no primeiro semestre desse ano, refletindo a menor produção, a redução da oferta no mercado interno e a alta dos preços, que continuam pressionando o orçamento das famílias. Em contrapartida, as exportações seguiram em expansão e ampliaram sua participação na produção nacional.

De acordo com a Câmara da Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da República Argentina (Ciccra), entre janeiro e junho, foram produzidas 1,428 milhão de toneladas de carne bovina com osso, volume 6,2% inferior ao registrado no mesmo período de 2025. No comparativo anual, a produção caiu quase 94 mil toneladas.

O levantamento do Ciccra também revela que o consumo anual de carne bovina por habitante diminuiu para 47 kg, redução de 8,2% em relação a junho de 2025. Isso representa menos 4,2 kg por pessoa ao ano e reforça a tendência de retração da demanda doméstica, enquanto o mercado externo ganha cada vez mais importância para o setor.