O governo do presidente Lula iniciou nesta segunda-feira, 20, uma rodada de reuniões com representantes dos setores mais atingidos pela tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros. O objetivo é mapear perdas de contratos, riscos para a produção e os empregos e a necessidade de crédito para definir as novas medidas de apoio às empresas exportadoras.
Os encontros serão coordenados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e servirão de base para a nova etapa do Plano Brasil Soberano. Entre as medidas avaliadas estão linhas de financiamento para capital de giro e investimentos, promoção comercial e apoio à abertura de mercados alternativos. As reuniões começaram nesta segunda-feira, dois dias antes da entrada em vigor da sobretaxa.
A nova barreira atinge cerca de 2,4 mil empresas e 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, o equivalente a US$ 7,4 bilhões, considerando os embarques realizados em 2024. Madeira, máquinas e equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados, etanol e açúcar estão entre os segmentos mais expostos.
Na sexta-feira, 17, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que a orientação de Lula é proteger a economia e os trabalhadores, sem abandonar as negociações com o governo norte-americano.
“Nós não saímos da mesa de negociação, a negociação é permanente. Nós vamos defender o interesse do Brasil, o emprego, as empresas, a economia permanentemente. Essa é a orientação do presidente Lula. A outra é buscar novos mercados, e está indo bem”, declarou.
Crédito e abertura de mercados
O Brasil Soberano deverá ser uma das principais ferramentas de proteção aos setores afetados. O Congresso já aprovou a autorização para disponibilizar até R$ 15 bilhões em crédito a empresas exportadoras e da agroindústria atingidas por medidas comerciais unilaterais e pela instabilidade internacional. O texto aguarda sanção presidencial.
O BNDES também solicitou ao Ministério da Fazenda a liberação de mais R$ 7,25 bilhões para reforçar as linhas. A procura das empresas pelo programa já alcançou R$ 18,4 bilhões. Os financiamentos podem cobrir até 100% dos investimentos, com prazo de pagamento de até 20 anos e juros inferiores aos praticados no mercado privado.
“O programa está gerando efeitos, o que vamos fazer é recalibrar”, explicou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ao anunciar que o governo estruturaria uma nova etapa do plano.
A estratégia inclui reduzir a dependência do mercado norte-americano. Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, 74% das cerca de 2,4 mil empresas acompanhadas pelo governo já começaram a buscar novos compradores desde o primeiro tarifaço. Com esse movimento, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu de 12,1% para 9,4%.
Brasil não aceitará acordo prejudicial à indústria
Além das medidas de apoio interno, o Governo Lula mantém as negociações para reduzir a tarifa, ampliar a lista de produtos excluídos e permitir novas revisões das medidas impostas por Washington.
Márcio Elias Rosa afirmou que o Brasil participou de mais de 30 reuniões com representantes norte-americanos desde o primeiro tarifaço. O governo apresentou propostas para reduzir impostos sobre mais de 300 linhas tarifárias, incluindo equipamentos médicos, bens de capital e produtos eletroeletrônicos.
Em contrapartida, os Estados Unidos exigiram que o Brasil zerasse as tarifas para bens industriais norte-americanos, sem oferecer benefício equivalente às exportações brasileiras. A abertura atingiria setores estratégicos, como as indústrias química, automotiva e de autopeças.
“O governo do presidente Lula não vai negociar isso. Nem hoje, nem amanhã, nem depois”, afirmou Márcio Elias Rosa. Segundo o ministro, a abertura indiscriminada aumentaria o déficit comercial brasileiro e colocaria em risco a indústria de base, os investimentos e os empregos.
O governo também deixou claro que não negociará o Pix. No caso do etanol, o Brasil defende que qualquer discussão inclua as barreiras impostas pelos próprios Estados Unidos ao açúcar brasileiro.
“O Brasil é vítima nesse processo, mas não é covarde. Nós não vamos ficar amedrontados frente a uma potência, que realmente é importante, significativa, e está nos causando dano. Não vamos ceder”, reforçou o ministro.