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Maioria da população aponta violência contra mulher como crime mais grave do país

De acordo com pesquisa, 74% afirmaram já ter sofrido violência. Quatro em cada dez mulheres alegam ter sido assediadas

Ações coordenadas buscam diminuir agressões e mudar a cultura que valida a violência contra as mulheresFoto: Thamy Frisselli

A violência contra a mulher passou a ocupar o centro das preocupações da população brasileira. Pesquisa Datafolha  revela que 61% dos brasileiros consideram a violência de gênero o crime mais grave do país, superando o tráfico de drogas, citado por 16% dos entrevistados. É a primeira vez que esse tipo de violência aparece no topo da lista relacionada à criminalidade.

O resultado reflete uma mudança importante na percepção da sociedade sobre um problema historicamente tratado como uma questão privada, mas que hoje é reconhecido como um desafio coletivo e estrutural. Os números ajudam a dimensionar essa realidade: segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mais de 600 mil medidas protetivas foram concedidas em 2025, uma média de 70 por hora. Ainda assim, os casos de feminicídio continuam crescendo em todo o país.

A gravidade do cenário também aparece nos relatos das próprias mulheres. Entre as entrevistadas pela pesquisa, 74% afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência ao longo da vida. Xingamentos, ameaças, perseguições, agressões físicas e violência sexual estão entre as experiências mais recorrentes. Quatro em cada dez mulheres disseram ter sido tocadas ou agarradas sem consentimento, enquanto uma em cada quatro relatou espancamento ou tentativa de enforcamento.

Diante desse contexto, o enfrentamento à violência de gênero tem ganhado espaço nas políticas públicas federais. Em abril deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou um pacote de medidas voltadas ao fortalecimento da proteção às mulheres e ao aperfeiçoamento dos instrumentos previstos na Lei Maria da Penha.

Parcerias entre ministérios

A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, afirma que o governo federal já iniciou a expansão, em todo o país, de um serviço de teleatendimento voltado à saúde mental de mulheres vítimas de violência. Segundo ela, a medida surgiu a partir de uma demanda recorrente apresentada pelas próprias mulheres.

“Uma das principais demandas é a saúde mental. Por isso, imediatamente conversei com o ministro Alexandre Padilha [da Saúde] e foi criado um serviço de teleatendimento em saúde mental para as mulheres. A iniciativa foi testada em Recife e no Rio de Janeiro e agora começa a ser expandida para todo o Brasil”, explica.

Para a ministra, o Pacto Brasil Contra o Feminicídio, liderado pelo governo Lula, e que envolve o Judiciário, Legislativo e Executivo, “estabelece como metas a mudança de cultura, além do fortalecimento às redes de atenção às mulheres e da responsabilização dos agressores e das instituições nesse sentido.”

E, como uma das metas do Pacto é a responsabilização, a ministra também ressalta a importância da Operação Mulher Segura, em parceria com o Ministério da Justiça e articulada aos estados, municípios e DF.

“Já tivemos mais de 6 mil homens presos com mandado de busca e apreensão e agora o ministro Wellington Lima já anunciou que teremos novas operações.”

Chamado à mudança

Na Câmara dos Deputados, a coordenadora da Bancada Feminina, deputada federal Jack Rocha (PT-ES), alerta que os números revelados pela pesquisa devem servir como um chamado à ação para toda a sociedade.

A violência contra as mulheres não é um problema privado, não é um problema das vítimas e não é uma questão que diz respeito apenas às mulheres. Trata-se de um desafio de toda a sociedade brasileira. Enfrentar essa realidade exige coragem para denunciar, acolher, educar e transformar comportamentos que, por muito tempo, foram naturalizados.”

Já a deputada federal Dandara (PT-MG), afirma que os dados da pesquisa Datafolha confirmam uma realidade denunciada há décadas pelo movimento de mulheres: a violência de gênero vai muito além da agressão física.

“A violência de gênero não começa com a agressão física. Ela começa com o controle. Começa quando ele proíbe a saída, isola das amigas, decide com o que pode ou não gastar”, alerta. “Precisamos de um país que reconheça o controle como prisão, o isolamento como tortura e a culpabilização da vítima como parte do mesmo sistema que mata. Um sistema que foi construído para nos silenciar e que, ainda hoje, encontra quem o defenda”, destaca.

Esse entendimento também orienta iniciativas legislativas voltadas ao enfrentamento da misoginia e da violência digital, a exemplo do Projeto de Lei 6194/2025, que propõe mecanismos de responsabilização civil e educação para combater o ódio contra mulheres nas plataformas digitais de autoria da deputada Ana Pimentel (PT-MG).

Acolhimento e responsabilização

Mais do que responder ao aumento dos índices de violência, as medidas adotadas buscam fortalecer a atuação do Estado em diferentes frentes: prevenção, acolhimento, proteção, fiscalização e responsabilização dos agressores.

Outro avanço recente foi o reconhecimento do vicaricídio como uma forma de violência doméstica. A prática ocorre quando o agressor utiliza filhos, familiares ou pessoas próximas para atingir emocionalmente a mulher, ampliando a compreensão legal sobre as diferentes formas de violência de gênero.

O conjunto de medidas também instituiu o Dia Nacional de Combate à Violência contra Mulheres Indígenas, fortalecendo a visibilidade de um grupo historicamente afetado por múltiplas vulnerabilidades.

Para a secretária nacional de Mulheres do PT, Mazé Morais, o fato de a violência contra a mulher aparecer como a principal preocupação dos brasileiros demonstra que a sociedade está cada vez mais consciente da gravidade do problema. Mazé também afirma que a violência se manifesta, também, na sobrecarga do trabalho doméstico, na desigualdade econômica, na falta de acesso a direitos e nas barreiras enfrentadas pelas mulheres para ocupar espaços de decisão.

“Os dados mostram o quanto as mulheres seguem expostas à violência em diferentes espaços e reforçam a importância de fortalecer as políticas públicas de prevenção, proteção, acolhimento e garantia de direitos. Combater a violência contra as mulheres é uma responsabilidade coletiva e uma condição indispensável para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária”, destaca.