Por Eliara Santana (*)
Mantras midiaticamente construídos conduzem percepções das pessoas e podem direcionar as eleições – e, cada vez mais, as palavras importam (1). Nesse contexto eleitoral que estamos vivendo, há três movimentos midiáticos que foram teoricamente descritos e que são parâmetros relevantes para a compreensão de cenários:
- agendamento;
- silenciamento;
- criação de tendências.
Em linhas bem gerais, agendamento é um conceito proposto pelos pesquisadores norte-americanos MCombs e Shaw na década de 70; ele enfoca um modelo para testar os efeitos da comunicação de massa na preferência política e eleitoral do público. O conceito aborda o poder dos meios de comunicação para interferir nos repertórios da comunicação interpessoal e de grupos – a seleção, a composição e o encadeamento das notícias criam e moldam determinada realidade política. Segundo os autores, a visibilidade e a proeminência de determinados temas em detrimento de outros num período delimitado (uma campanha eleitoral, por exemplo) foram definidas como a “agenda da mídia”.
O silenciamento, conceito descrito por Eni Orlandi (2015), é a ação de colocar em silêncio, com uma produção de sentidos silenciados. Segundo a autora, o silêncio não é a ausência de palavras ou o ato de calar o interlocutor – o silêncio é, na verdade, aquilo que impede o interlocutor de sustentar um outro discurso; o silêncio é aquilo que é apagado, excluído, deixado de lado, numa ação intencional de escantear determinados outros sentidos.
Por fim, a criação de tendências, concepção um pouco mais recente e que ganhou contornos importantes pela abordagem do marketing, mas que hoje integra o rol do fazer político. Também em linhas gerais, essa concepção se refere ao desenvolvimento de estratégias para pautar o debate público e moldar a percepção dos eleitores em relação a temas específicos. Resumidamente, esse processo pode ser assim representado: são identificados temas sensíveis; eles são reconfigurados e midiaticamente trabalhados, com a criação de um inimigo comum, e tudo isso embalado em linguagem muito acessível.
Feita a embalagem teórica, vamos à vida real para entender como tudo isso está funcionando neste momento à luz de desdobramentos que envolvem o âmbito político e o econômico às vésperas da eleição deste ano e se vinculam na formação de tendências de percepção da opinião pública.
Economia e corrupção
Desde o final do ano passado (2025), há, na mídia tradicional, um bombardeamento de notícias econômicas com viés negativo, e tudo isso ganha muita repercussão no ambiente digital. Os mantras nesse sentido foram evoluindo e se alternando.
Tiveram início com construções como “inflação sem controle” e migraram para “dívida pública do Brasil”, “gastança do governo”, à medida que ficou impossível esconder que a inflação, mês após mês, estava sob controle.
Essas ressignificações deram muita força e alimentaram a formulação de desinformação sobre temas econômicos. Como mostra levantamento do Estadão Verifica, do jornal Estado de São Paulo, que mostrou que “somente no mês de agosto, postagens nas redes sociais lamentaram o fechamento de fábricas de quatro grandes marcas no Brasil: Nestlé, Brastemp, Consul e Volkswagen. Os posts culpavam a política econômica nacional e alegavam que as empresas teriam quebrado. Mas nenhuma delas faliu, e as fábricas fechadas nem sequer ficavam em solo brasileiro. Por aqui, ao contrário, as operações seguem ativas e com previsão de novos investimentos”.
Ou seja, há uma proliferação de notícias falsas sobre crise econômica, o Brasil quebrado, empresas fechando. E não adianta mais desmentir porque as pessoas, alimentadas por uma enxurrada de notícias negativas sobre economia, já não acreditam que há algo positivo. Isso gera tendência e não é favorável ao governo.
Ao lado desse bombardeio sobre economia, há também o movimento sistemático de ligar um personagem determinado aos repertórios. Dessa forma, o presidente Lula é reiteradamente colocado no centro do tema da corrupção (seja com o caso do Banco Master, seja com a exposição das investigações sobre o filho, Fábio Luiz) e no centro da suposta crise econômica, com as construções envolvendo um viés sempre negativo da economia, o que é dado agora pelos temas que circunscrevem esse noticiário, que são dívida pública e “gastança” do governo.
A fórmula é já conhecida: os criadores de conteúdo mentiroso misturam realidade e mentira na produção desses posts, usando um fato real retirado de contexto e reproduzindo como se fosse uma notícia factual.
Sinalizei aqui, em outros momentos, que a percepção das pessoas em relação ao governo ia piorar à medida que as pesquisas fossem favoráveis, pois o encaminhamento era nesse sentido. A tendência gerada é negativa, e os dados positivos divulgados pelo governo não batem com a percepção circulante.
O esteroide anabolizante do pesquisismo
Os boatos relativos à piora da economia, com a propagada crise econômica com “quebradeira” em vários setores, geram ansiedade, medo e raiva entre a população, que não domina muito bem tais temas e direciona esses sentimentos muito negativos a quem chefia, ou seja, o governo.
E é aí que entra o apoio importante da profusão de pesquisas eleitorais e dos recortes feitos em cima de alguns dados, o que, em consonância com o bombardeio negativo sobre a economia, também gera tendência negativa de desaprovação.
Para esclarecer mais corretamente sobre esse tema, conversei com cientistas políticos que deram informações importantes, mas que não quiseram ser citados. Eles elencaram pontos relevantes em relação às pesquisas e salientaram que dois mantras estão se impondo narrativamente: “a virada da direita” e “Lula perder”, o que não encontra respaldo na literatura considerando-se uma aprovação entre 45% e 43% apontada pela mais recente pesquisa Quaest.
Segundo os dados apresentados em 7 de setembro, a desaprovação ao governo Lula alcançou 50%, e a aprovação está em 43%, dentro da margem de erro, que é de dois pontos. No levantamento anterior, divulgado em 2 de setembro, os dados eram de 48% de desaprovação e 45% de aprovação.
Um ponto destacado pela reportagem de O Globo diz o seguinte: “As duas variações foram de dois pontos percentuais e, portanto, estão no limite da margem de erro da pesquisa. O resultado não permite falar em uma mudança consolidada na avaliação do governo, mas interrompe a melhora registrada por Lula em levantamentos anteriores e amplia numericamente o saldo negativo da gestão”. Ou seja, não se identificou ainda, efetivamente, uma mudança consolidada de tendência de desaprovação, mas isso ganha destaque nas manchetes.
Outro aspecto relevante a se considerar é uma questão “mercadológica” das simulações estimuladas de segundo turno, como alertaram os pesquisadores ouvidos, que salientaram que há ainda muita coisa a acontecer entre este momento e um eventual segundo turno no final do mês de outubro, e essas projeções são incertas, mas podem mobilizar, por exemplo, o mercado financeiro.
“Vender incerteza é muito bom, e um empate no segundo turno gera o máximo de incerteza. Esse aspecto aumenta a propensão das pessoas de quererem ‘comprar’ certeza. O setor financeiro está ‘comprando’, com essas pesquisas, a sensação ou a ilusão de que há um cenário melhor pra fazer investimentos e tal. Portanto, as pessoas, os grupos, querem comprar certeza patrocinando tantas pesquisas e tentando influenciar o resultado eleitoral”, esclareceram.
Para finalizar, destacaram ainda o que se pode chamar de um efeito de “esteroide anabolizante” das pesquisas. Trocando em miúdos: há uma coreografia muito bem ensaiada colocada em cena com a grande ajuda da mídia; a parceria mídia-judiciário que identifiquei em minha tese envolvendo a Lava Jato permanece muito ativa, com vazamentos seletivos para alguns figurões e a repercussão dos temas enviesados – um cenário pintado no início de uma semana conturbada pode não ser exatamente o cenário sustentado. E o esteroide anabolizante segue atuando.
“Há algo de doping, como um esteroide anabolizante; o resultado está anabolizado – pegaram exatamente aquele momento em que o governo está sendo castigado na opinião pública. Depois, a poeira já assenta, muda um pouco”, alertaram os pesquisadores.
No artigo “Por que o TSE deve exigir microdados das pesquisas eleitorais”, os cientistas políticos Dalson Figueiredo e Dawisson Belém Lopes ressaltam uma discussão importante sobre o conceito de priming, que se refere a “uma operação, muito comum entre marqueteiros políticos, de tentar criar uma onda, fixar uma ideia, imprimir algo no cérebro dos que consomem determinada informação. E, assim, induzir comportamentos eleitorais”.
Nesse sentido, eles enfatizam que as simulações de comportamento eleitoral podem dar espaço a práticas pouco republicanas e, no limite, fraudulentas.
A um mês de uma turbulenta eleição, com temas essenciais sendo intencionalmente deixados de lado, estamos novamente diante de estratégias que projetam intencionalmente determinados cenários, geram tendência negativa na percepção do eleitor em relação ao governo e formatam o debate público. No limite, podem impactar profundamente o processo eleitoral.
Nota:
(1) “As palavras importam – More than Words, na versão original – é o título de um artigo de AJZENMAN; CAVALCANTI; DANTAS (2020). A pesquisa está centrada no impacto do que os autores nomeiam como uma retórica populista. De acordo com os autores, a retórica populista, especialmente contra os preceitos científicos, pode influenciar o comportamento das pessoas em relação à saúde, o que se observou amplamente entre os apoiadores de Jair Bolsonaro no tocante aos cuidados durante a pandemia. Este artigo é um dos precursores na abordagem sobre a perspectiva de um agenciamento da desinformação sistematizada por meio de vozes públicas.
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).