O senador Flávio Bolsonaro (PL) foi aos Estados Unidos para falar por cerca de cinco minutos em uma audiência pública do USTR, o escritório comercial do governo norte-americano, sobre a tarifa adicional de 25% contra produtos brasileiros. No centro da fala, não esteve uma defesa firme e definitiva da retirada da medida contra o Brasil, mas a tentativa de convencer Washington a suspender a decisão por 180 dias, empurrando o impasse para depois das eleições brasileiras.
O tarifaço passou a ser tratado por Flávio Bolsonaro como um risco político para sua própria pré-candidatura. Em audiência, afirmou que a imposição das tarifas agora ocorreria no “pior momento possível” e argumentou que a medida poderia fortalecer Lula no debate interno.
A movimentação ocorre depois de meses em que a família Bolsonaro foi associada a pressões externas contra o Brasil, em meio a ataques ao Governo Lula, ao Pix, a setores estratégicos da economia nacional e às instituições brasileiras. Agora, diante da repercussão negativa do tarifaço e do custo político da associação com os interesses de Washington, Flávio tenta se apresentar como alguém preocupado com os efeitos da medida.
Adiamento não é soberania
O esforço de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos não elimina o fato de que o Brasil está diante de uma medida unilateral que pode atingir exportações, cadeias produtivas e empregos. A resposta esperada de uma liderança comprometida com o interesse nacional seria defender, de forma inequívoca, o fim da pressão comercial contra o país.
Pedir que a decisão seja suspensa por 180 dias significa aceitar que o problema pode voltar logo adiante e que o tarifaço é inconveniente agora, mas não necessariamente inaceitável em si. É essa diferença que torna a viagem reveladora. O centro da preocupação não parece ser o dano ao Brasil, mas o momento em que esse dano seria cobrado.
Parlamentares do PT afirmam que Flávio tenta se descolar de uma agenda que, até pouco tempo atrás, servia ao bolsonarismo como instrumento de pressão contra Lula e contra o Estado brasileiro. Quando a ofensiva externa parecia útil para desgastar o governo, a família Bolsonaro apostou no confronto. Mas quando o tarifaço passou a gerar desgaste para os próprios bolsonaristas, veio a tentativa de reposicionamento.
Contradições expostas em Washington
A ida de Flávio aos Estados Unidos também acontece depois de uma resposta negativa do Governo Trump a seus próprios apelos. Em carta, o secretário de Estado Marco Rubio manteve a posição norte-americana, reiterou divergências comerciais com o Brasil e não ofereceu concessão imediata ao senador. Ainda assim, Flávio viajou para participar da audiência e tentar sustentar a nova narrativa.
Para o presidente nacional do PT, Edinho Silva, a família Bolsonaro tenta reescrever a própria atuação diante das consequências econômicas e políticas da ofensiva contra o Brasil. A avaliação é que Flávio busca se apresentar como defensor dos interesses nacionais depois de ter alimentado uma agenda de subordinação a interesses estrangeiros.
O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai, também criticou a viagem. Para ele, Flávio não foi aos Estados Unidos defender empregos, empresas, agricultores, trabalhadores ou a soberania brasileira, mas atuar como linha auxiliar de uma ofensiva que envolve tarifaço, sanções políticas, ataques ao Pix e pressão sobre recursos estratégicos.
O caso do Pix é um dos exemplos mais claros dessa disputa. A ferramenta, criada e administrada pelo Banco Central, tornou-se parte da vida cotidiana de milhões de brasileiros e reduziu custos para consumidores, trabalhadores informais, pequenos comerciantes e empresas. Ao ser colocada sob questionamento por interesses externos, deixou de ser apenas um tema técnico: passou a simbolizar a capacidade do Brasil de desenvolver soluções próprias, populares e eficientes.
Governo Lula negocia por canais oficiais
Enquanto Flávio Bolsonaro faz uma movimentação política nos Estados Unidos, o Governo Lula mantém as negociações por vias diplomáticas e comerciais. A posição do governo brasileiro tem sido tratar o tema como uma questão de Estado, com foco na defesa de trabalhadores, empresas, exportadores e da soberania nacional.
Essa diferença é importante porque a audiência pública do USTR não substitui uma negociação oficial entre países. Ela é uma etapa do processo interno norte-americano. A defesa do Brasil, portanto, não se resolve com gesto de campanha, nem com tentativa de convencer Washington a calibrar a data de uma medida para reduzir prejuízo eleitoral.
Ao falar por poucos minutos nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro acabou revelando mais do que pretendia. A prioridade não foi construir uma saída para o Brasil, mas afastar de si o desgaste de uma crise que o bolsonarismo ajudou a criar. O pedido de adiamento deixa claro que o problema, para ele, não é o tarifaço em si. É a conta política chegar antes da eleição.