(*) Por Reimont
Neste final de maio – quando a sociedade começa a despertar para os abusos e crimes da extrema direita, particularmente no envolvimento de Daniel Vorcaro com a família Bolsonaro e seus cúmplices –, a Câmara Federal entra na reta final da discussão sobre o fim da escala 6×1. A PEC [Proposta de Emenda Constitucional], que conta com o governo Lula, será votada nos dias 26 e 27 de maio.
Na tentativa de barrar o direito de cerca de 30 milhões de trabalhadoras e trabalhadores que serão beneficiados, a extrema direita e o Centrão apresentaram uma emenda bizarra e de última hora, assinada por 176 parlamentares, sendo 15 do Rio de Janeiro.
A emenda é um escárnio com a classe trabalhadora, uma verdadeira Bolsa Patrão para as elites endinheiradas. A proposta adiaria por 10 anos a implantação da jornada de trabalho de 40 horas e daria os seguintes benefícios aos empregadores: redução pela metade da contribuição patronal ao FGTS; isenção temporária da contribuição à Previdência Social; possibilidade de descontar despesas com novos postos de trabalho da base de cálculo do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Como se não bastasse, chega ao grau mais alto do absurdo ao propor o aumento da jornada máxima para 52 horas semanais (com limite de 10 horas diárias) em casos de compensação, a depender de negociações via lei complementar e acordos coletivos.
Uma vergonha de uma gente que não tem a menor ideia do que seja o trabalho pesado e desumano a que estão submetidos trabalhadores e trabalhadoras de baixa renda, e muito particularmente as mulheres. É uma rotina muito dura.
No último sábado (16/05), de manhã, fui coletar sangue em um laboratório na Tijuca, onde moro, e me atendeu uma jovem auxiliar de enfermagem, de 22 anos, chamada Kate, moradora de Sepetiba, na Zona Oeste do Rio. Perguntei e ela me falou sobre essa a rotina exaustiva que enfrenta todos os dias, de segunda a sábado, para conciliar o trabalho e o estudo na Faculdade de Enfermagem da UNISUAM, em Bonsucesso. Contou que tem pouco tempo para se dedicar aos estudos, muitas vezes entre um cochilo e outro nos ônibus.
Pra ir de Sepetiba a Tijuca, Kate acorda às 4 da manhã, no máximo; percorre os mais de 65 km entre os dois pontos em uma viagem de 3 a 4 horas. Encerrado o expediente, sai na correria para vencer a tempo os cerca de 15 km que separam a Tijuca de Bonsucesso, em mais um transporte público precário. Volta pra casa em torno de meia-noite.
Kate é uma das 43 milhões de trabalhadoras do Brasil, que representam cerca da metade da força de trabalho nacional. Dessas, quase 8 milhões estão no setor de Comércio. Já no de Serviços, a força de trabalho é majoritariamente feminina, quase 54%.
Esses dois setores concentram milhões de mulheres submetidas à jornada 6×1. A escala afeta 60% das mulheres pretas que ganham até 1,5 salários mínimos e mais de 370 mil que, apesar de terem diploma superior, recebem até dois salários mínimos (sim, as mulheres ganham cerca de 30% a menos do que os homens, para exercerem o mesmo trabalho em igual função).
Algumas, como Kate, não têm filhos; a maioria tem. Mas todas, trabalhando em escala 6×1, enfrentam a chamada “tripla jornada” – além do trabalho, acumulam em torno de 21 horas semanais em trabalhos de cuidados e afazeres domésticos não remunerados.
As mulheres representam a maioria dos responsáveis financeiros e chefes de família do Brasil – lideram mais de 41 milhões de lares, quatro pontos percentuais a mais do que os homens. Estão à frente de famílias que a brutalidade da jornada 6×1 não permite que acompanhem de perto, com a atenção e os cuidados necessários, com um tempo digno de descanso, com direito a estudar, se divertir e viver.
Elas serão as principais beneficiárias do fim da escala 6×1. Mas a extrema direita e o Centrão não querem; se comportam como o rei da fábula “A Roupa Nova do Rei“, do dinamarquês Hans Christian Andersen, em que um monarca vaidoso, narcisista e arrogante, habituado a gastar fortunas em roupas, encomenda um novo traje a uma dupla de falsos alfaiates, que lhe prometem uma roupa mágica, visível apenas para as pessoas inteligentes e eficazes.
Durante a confecção, o rei finge ver o tecido, para não parecer tolo ou incapaz. E todos na corte fazem o mesmo. Mas, quando sai pela primeira vez às ruas, para exibir-se, o grito de uma criança coloca a farsa abaixo. “O rei está nu!”.
Neste momento, em que a sociedade brasileira desnuda os autointitulados reis do país, é preciso gritar como aquela criança do conto: escrevam aos deputados, inundem suas caixas de correio eletrônico. Se o povo soltar a voz, a gente vira esse jogo!
O mês de maio simboliza o desabrochar da primavera, a maternidade, a mudança. É o momento!
(*) Deputado federal pelo PT do Rio de Janeiro