Às vésperas da convenção que oficializará sua candidatura à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reuniu nesta sexta-feira, 24, em São Paulo, com o presidente argentino Javier Milei. O ultradireitista também foi convidado a discursar no evento do PL, marcado para sábado, em uma demonstração de apoio estrangeiro ao projeto eleitoral bolsonarista.
A fotografia que Flávio busca ao lado de Milei, porém, contrasta com o retrato da Argentina feito por algumas das personalidades mais admiradas do próprio país. O jogador Lionel Messi falou dos argentinos sem emprego e que não conseguem chegar ao fim do mês. O ator Ricardo Darín questionou os números usados pelo governo para vender uma recuperação econômica. A cantora Lali Espósito enfrentou perseguição e ataques do próprio presidente. Já a cantora María Becerra cobrou ajuda estatal diante dos incêndios na Patagônia.
As manifestações não partem de um bloco político organizado. Juntas, no entanto, elas dão voz a uma realidade que a propaganda oficial tenta esconder. Entre novembro de 2023 e abril de 2026, a Argentina perdeu 308 mil postos de trabalho assalariado. Os salários registrados acumulam queda real de 8,4%, enquanto as vendas nos supermercados estão 14,3% abaixo do nível encontrado antes da posse de Milei.
Messi: aperto das famílias no centro do debate
Após a vitória sobre a Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo, o jogador Lionel Messi dedicou a classificação da Argentina aos compatriotas que enfrentam dificuldades econômicas.
“Sabemos que há gente passando mal, sem trabalho, que não chega ao fim do mês e vive lutando”, afirmou o capitão da seleção argentina. Messi explicou que o futebol oferecia um momento de alegria a quem convive diariamente com problemas muito maiores.
A declaração não mencionou Milei, mas provocou reação na Casa Rosada. Inicialmente, o porta-voz presidencial Adrián Ravier afirmou que o governo não concordava com a ideia de que os argentinos não conseguiam chegar ao fim do mês. Diante da repercussão, o discurso mudou.
A Oficina de Resposta Oficial reconheceu que a afirmação do jogador era “completamente verdadeira”, mas tentou transferir toda a responsabilidade aos governos anteriores. O próprio Milei compartilhou a manifestação nas redes sociais.
A tentativa de contestar o maior ídolo do país acabou ampliando o alcance da frase. Messi apenas descreveu o cotidiano de milhões de argentinos e obrigou o governo a admitir que a realidade está distante da euforia vendida pela propaganda libertária.
Ator Ricardo Darín questiona os números da propaganda oficial
O ator Ricardo Darín, protagonista do filme “Argentina, 1985” e um dos artistas argentinos de maior projeção internacional, também colocou em dúvida a narrativa econômica da Casa Rosada.
Durante uma entrevista a uma televisão espanhola, Darín reconheceu que Milei chegou ao poder pelo voto, mas afirmou que os indicadores celebrados pelo governo não correspondem ao que ele observa nas ruas.
“Gostaria de entender esses parâmetros, porque vejo gente que está passando realmente muito mal”, declarou. O ator classificou o atual período como um “momento decisivo” e lamentou que a Argentina continue presa à intolerância e à divisão.
Não foi a primeira vez que o artista incomodou o governo. Em 2025, ao usar o preço das empanadas como exemplo da perda do poder de compra, Darín virou alvo de Milei, do ministro da Economia, Luis Caputo, e da tropa digital libertária.
Em vez de responder à preocupação com o custo de vida, o governo preferiu ridicularizar o ator. Darín reiterou posteriormente que não tinha intenção de provocar uma polêmica, mas reforçou que muita gente enfrentava dificuldades para sobreviver.
Lali Espósito fez perseguição virar música
O confronto mais conhecido entre Milei e o mundo da cultura tem como protagonista a cantora e atriz Lali Espósito. Tudo começou em 2023, quando ela classificou a ascensão eleitoral do ultradireitista como “perigosa e triste”.
Já na Presidência, Milei passou a chamá-la de “Lali Depósito” e a acusá-la de viver de recursos públicos. Os ataques foram reproduzidos por integrantes do governo, apoiadores e perfis libertários nas redes sociais.
Lali reagiu sem abandonar o debate. “Opinei como parte da sociedade e vou continuar fazendo isso”, afirmou em 2025, ao recordar a perseguição promovida pelo presidente e seus aliados. A artista transformou os ataques na canção Fanático e fez da música uma resposta ao assédio político.
No Cosquín Rock de 2026, a cantora voltou ao palco com um vestido estampado com frases ofensivas recebidas nas redes sociais. Durante uma versão de Los viejos vinagres, da banda Sumo, enfatizou o verso: “Para você, o pior é a liberdade”.
O público relacionou a frase ao governo que usa a palavra “liberdade” como slogan enquanto mobiliza o aparato presidencial contra artistas que ousam criticá-lo.
Nobel da Paz, Pérez Esquivel fez jejum contra a fome
A contestação ao governo também ganhou a voz do ativista de direitos humanos Adolfo Pérez Esquivel, argentino vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1980.
Em junho, Pérez Esquivel iniciou uma semana de jejum e oração na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, ao lado de organizações ecumênicas, sociais e de defesa dos direitos humanos.
A mobilização denunciou o crescimento da fome, da exclusão e da violência, além da deterioração das condições de vida sob o governo Milei.
“Isso vai mudar quando o povo se colocar de pé e disser basta”, afirmou o ativista.
Para o Nobel da Paz, a resposta não deve ser a violência, mas uma “rebelião de consciências” capaz de retirar a população do estado de desamparo produzido pelo governo. A manifestação também foi replicada em praças de outras regiões argentinas.
Pianista Martha Argerich e músicos defendem a universidade pública
Os cortes na educação reuniram artistas de diferentes áreas e gerações. Em maio, a pianista Martha Argerich, uma das maiores intérpretes da música clássica mundial, apoiou a Marcha Federal Universitária e defendeu o direito dos jovens argentinos ao ensino superior público e gratuito.
A mobilização exigiu que Milei cumprisse a Lei de Financiamento Universitário, aprovada pelo Congresso e respaldada pela Justiça. Desde 2023, as transferências para as universidades perderam 45,6% de seu valor real, segundo o Conselho Interuniversitário Nacional.
Além da pianista, aderiram ao movimento a dupla musical Ca7riel e Paco Amoroso, a atriz Cecilia Roth, o cantor León Gieco, a atriz Mercedes Morán e as escritoras Mariana Enríquez, Samanta Schweblin, Selva Almada e Gabriela Cabezón Cámara.
“Que ninguém nos tire o que é nosso”, dizia a convocação dos artistas.
Cantora María Becerra: do hino na final ao pedido de socorro pela Patagônia
Escolhida a pedido dos jogadores da seleção argentina, a cantora María Becerra interpretou o hino nacional diante de mais de 80 mil pessoas antes da final da Copa do Mundo contra a Espanha.
A apresentação foi definida pela artista como um dos momentos mais importantes de sua carreira. Becerra tornou-se, assim, uma das vozes do país em um dos eventos de maior audiência do planeta.
A mesma cantora que emocionou os argentinos já havia usado sua projeção para cobrar a presença do Estado. Durante os incêndios que atingiram a Patagônia em 2025, Becerra alertou para a destruição de casas e florestas e convocou o público a ajudar as famílias atingidas.
“Se o Estado não está dando a ajuda necessária, damos nós”, disse a cantora diante de quase meio milhão de pessoas na Fiesta de la Confluencia.
Milei respondeu compartilhando um meme que insinuava que a artista poderia se beneficiar das doações. Mais uma vez, a reação presidencial não foi explicar o que o governo fazia diante da emergência, mas atacar quem cobrava providências.
É esse modelo que Flávio Bolsonaro tenta transformar em vitrine para o Brasil. Em sua passagem anterior por Buenos Aires, o senador elogiou o governo Milei e prometeu promover um “tesouraço” na máquina pública brasileira.
Enquanto busca o apoio do argentino para enfrentar o presidente Lula, Flávio ignora o alerta que vem dos próprios ídolos do país vizinho: por trás da propaganda da motosserra, estão menos empregos, salários corroídos, serviços públicos desmontados e um governo que responde às críticas com perseguição e ataques.