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O saldo de um governo que investiga o Banco Master: em 6 meses, PF bloqueia R$ 27,7 bi

Operação Compliance Zero já soma 21 prisões e 116 mandados de busca em investigação sobre fraude bilionária, com conexões do bolsonarismo

As seis fases da operação, executadas até 14 de maio, trouxeram à luz o que pode ser a maior fraude contra o sistema financeiro nacional já registrada no país

A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF) para investigar suspeitas de fraude bilionária envolvendo o Banco Master, completou seis meses nesta segunda-feira, 18, com um balanço que escancara a dimensão financeira e política do caso. A Justiça já autorizou o bloqueio e o sequestro de cerca de R$ 27,7 bilhões em bens e valores de investigados, em uma apuração que alcança o banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco de Brasília (BRB) e boa parte de personagens diretamente ligados ao bolsonarismo, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro.

Recentemente, foram divulgados, em reportagem do portal Intercept Brasil, áudios e mensagens que mostram a proximidade do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o banqueiro do Master. Flávio Bolsonaro pediu a Vorcaro R$ 134 milhões para financiar o filme Dark Horse, que conta a história de seu pai, Jair Bolsonaro. O senador, que é pré-candidato à Presidência da República, negou peremptorimente, antes dos fatos revelados, que tivesse qualquer ligação com Vorcaro. O Partido dos Trabalhadores pede, em várias frentes de investigação, que se apure o destino de R$ 61 milhões que Vorcaro enviou a Flávio Bolsonaro.

Seis fases da Compliance Zero

As seis fases da operação, executadas até 14 de maio, trouxeram à luz o que pode ser a maior fraude contra o sistema financeiro nacional já registrada no país. Desde o início da apuração, as provas reunidas levaram o Judiciário, sobretudo o Supremo Tribunal Federal (STF), a decretar 21 prisões temporárias ou preventivas, incluindo a de Vorcaro, ex-dono do Banco Master e principal alvo da investigação.

Desde o início da apuração, as provas reunidas levaram o Poder Judiciário a decretar 21 prisões temporárias ou preventivas. Também foram expedidos 116 mandados de busca e apreensão, cumpridos em sete unidades da Federação: Bahia, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Distrito Federal.

As investigações começaram no início de 2024, a pedido do Ministério Público Federal (MPF). De acordo com a Polícia Federal, o esquema investigado envolvia a fabricação de carteiras de crédito sem lastro financeiro, que teriam sido vendidas ao Banco de Brasília (BRB). Após fiscalização do Banco Central, esses títulos teriam sido substituídos por outros ativos sem avaliação técnica adequada.

A operação também revelou uma complexa rede de relações construída por Vorcaro com políticos, empresários, servidores públicos de alto escalão e agentes ligados ao próprio sistema de fiscalização.

1ª fase prendeu Vorcaro e atingiu o BRB

A primeira fase da Compliance Zero foi deflagrada em 18 de novembro de 2025. Na ocasião, Daniel Vorcaro foi um dos sete presos. Também foram detidos executivos e sócios ligados ao Banco Master, entre eles o ex-CEO e sócio da instituição, Augusto Ferreira Lima.

Na mesma etapa, a 10ª Vara Federal de Brasília determinou o afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e do então diretor financeiro do banco estatal do Distrito Federal, Dario Oswaldo Garcia. Sete meses antes, a diretoria do BRB havia tentado comprar o Banco Master por cerca de R$ 2 bilhões, mas o negócio foi barrado pelo Banco Central em setembro de 2025.

Em meio às revelações, o Banco Central oficializou a liquidação extrajudicial de instituições financeiras do conglomerado Master, como os bancos Master de Investimento, Letsbank, Master Corretora de Câmbio, Will Financeira e Banco Pleno. O BC também tornou indisponíveis os bens dos controladores e ex-administradores do grupo e decretou Regime Especial de Administração Temporária no Banco Master Múltiplo S/A.

O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) já gastou aproximadamente R$ 49,5 bilhões para ressarcir clientes do Grupo Master, do Will Bank e do Banco Pleno.

Novas fases: lavagem, corrupção e milícia

Na segunda fase, deflagrada em 14 de janeiro, o STF expediu 42 mandados de busca e apreensão. A etapa buscava provas de lavagem de dinheiro e resultou no bloqueio de mais de R$ 5,7 bilhões dos investigados, por decisão do ministro Dias Toffoli.

A terceira fase, em 4 de março, levou Daniel Vorcaro de volta à prisão. Segundo a PF, mensagens encontradas no celular apreendido do banqueiro indicariam conversas sobre a possibilidade de simular um assalto contra o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, além de outras ações violentas contra ex-empregados.

Ainda conforme a Polícia Federal, Vorcaro controlava uma milícia particular para intimidar e coagir desafetos. O grupo era chamado pelo próprio banqueiro de “A Turma”. Nessa etapa, além de Vorcaro, foram presos o cunhado dele, Fabiano Zettel; o policial aposentado Marilson Roseno da Silva; e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, apontado como chefe do grupo.

A terceira fase também resultou no sequestro e bloqueio de cerca de R$ 22 bilhões em bens e contas de investigados. O STF determinou ainda que o Banco Central afastasse dois servidores da área de supervisão bancária, suspeitos de atuar ilegalmente em favor dos interesses do Banco Master.

Ex-presidente do BRB foi preso na 4ª fase

A quarta fase da operação ocorreu em 16 de abril e aprofundou as investigações sobre corrupção de agentes públicos. Com autorização do STF, a PF prendeu preventivamente o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e o advogado de Vorcaro, Daniel Monteiro.

Segundo as investigações citadas pela Agência Brasil, Costa teria combinado com Vorcaro o recebimento de R$ 146,5 milhões em propina, valor que seria repassado por meio de imóveis. A PF afirma ter provas de que ao menos R$ 74 milhões foram pagos. Costa nega as acusações.

5ª fase teve Ciro Nogueira como alvo

Em 7 de maio, a quinta fase da Compliance Zero atingiu o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do Progressistas e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro. Ele foi alvo de mandados de busca e apreensão.

De acordo com a Polícia Federal, Ciro é suspeito de atuar politicamente em favor dos interesses de Daniel Vorcaro. Em troca, segundo os investigadores, teria recebido entre R$ 300 mil e R$ 500 mil por mês, além de outras vantagens, como custeio de viagens internacionais, hospedagens e despesas em restaurantes.

A PF também investiga a chamada “Emenda Master”, apresentada por Ciro em agosto de 2024 à PEC da autonomia do Banco Central. O texto defendia ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a garantia ordinária do Fundo Garantidor de Créditos. Segundo a PF, a emenda teria sido elaborada por assessores do Banco Master e entregue ao senador para ser apresentada no Congresso como se fosse de sua autoria.

6ª fase prendeu “A Turma”

A sexta fase da operação foi deflagrada em 14 de maio, com seis mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão. Um sétimo mandado de prisão foi cumprido dois dias depois, com a detenção de Victor Lima Sedlmaier em Dubai, nos Emirados Árabes, em ação conjunta da PF, da Interpol e da polícia local.

Entre os alvos da etapa estava Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro. Segundo a PF, ele participava do gerenciamento de “A Turma”, grupo revelado na terceira fase da operação e apontado como milícia pessoal do banqueiro.

Também foi preso o policial federal Anderson da Silva Lima, suspeito de repassar a Daniel Vorcaro dados sigilosos sobre investigações em andamento. A Justiça determinou ainda a transferência do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, preso desde a terceira fase, para um presídio federal.

Seis meses depois da primeira fase, a Compliance Zero reúne um dos maiores conjuntos de medidas judiciais já adotados em uma investigação financeira no país: R$ 27,7 bilhões bloqueados, 21 prisões, 116 mandados de busca e suspeitas que alcançam banqueiros, operadores financeiros, agentes públicos, policiais e políticos. O caso segue sob investigação.