Desde a divulgação de mensagens entre o senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, e o banqueiro e dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, na última quarta-feira, 13, as inconsistências do discurso do filho “01” de Jair Bolsonaro ganharam ainda mais força. Horas antes do vazamento, Flávio ainda negava sua relação com Vorcaro, que está preso por suspeitas de comandar um esquema bilionário de fraude financeira.
Após a publicação da reportagem do portal Intercept Brasil com mensagens e áudios compartilhados, no entanto, o senador passou a admitir publicamente negociações milionárias para financiar o filme Dark Horse, a cinebiografia de seu pai planejada para estrear no segundo semestre.
Ao longo dos últimos meses, Flávio construiu uma narrativa pública baseada na negação de vínculos com Vorcaro e na tentativa de associar o escândalo exclusivamente ao Partido dos Trabalhadores e ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
As mensagens reveladas, porém, desmontam essa estratégia e expõem uma sequência de mentiras e contradições envolvendo encontros reservados, cobranças de pagamentos e declarações públicas incompatíveis com os diálogos privados. Parlamentares do PT pedem por investigações mais precisas e defendem que a “corrupção está cada vez mais presente no clã Bolsonaro”.
Confira a lista de mentiras:
Mentira 1 – Nunca tive contato com Vorcaro
No dia 16 de março, o senador Flávio Bolsonaro disse à jornalista Monica Bergamo, da Folha de S.Paulo, que nunca tinha tido contato do Daniel Vorcaro, o ex-dono do Banco Master. Havia a informação de que o número de telefone do senador aparecia na agenda de Vorcaro.
Mentira 2 – A negativa antes do vazamento
Na manhã do dia 13 de maio, horas antes da publicação da reportagem do Intercept, Flávio reagiu com ironia ao ser questionado por um dos jornalistas sobre o financiamento do filme Dark Horse por Daniel Vorcaro. “É mentira, de onde você tirou isso?”, respondeu o senador, antes de chamar o repórter de “militante”.
Poucas horas depois, com a divulgação das mensagens, o discurso mudou. Em vídeo publicado nas redes sociais, Flávio admitiu ter procurado investimentos para o longa sobre o pai e reconheceu que havia um acordo firmado com o banqueiro. Afirmou que o combinado foi feito por “um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”. Segundo o Intercept, Vorcaro teria prometido R$ 134 milhões para o projeto cinematográfico. Ao que tudo indica, cerca de R$ 61 milhões já haviam sido repassados até maio de 2025.
Mentira 3 – Nenhuma intimidade?
Outra declaração colocada em xeque após o vazamento foi a tentativa de minimizar a relação entre Flávio e Vorcaro. Em entrevista à GloboNews, o senador afirmou: “Nunca saí para tomar vinho [com Vorcaro], as nossas famílias não se conhecem”.
As mensagens divulgadas, porém, mostram conversas em tom de intimidade e convites para encontros privados. Em outubro de 2025, Flávio convidou Vorcaro para um jantar reservado com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh, integrantes da produção de Dark Horse. Quando o banqueiro sugeriu realizar o encontro em sua residência, o senador respondeu: “Pode ser na sua casa sim! Acho até melhor!”.
Em outra troca de mensagens, um dia antes da prisão de Vorcaro em novembro de 2025, Flávio escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”.
Mentira 4 – Ninguém imaginava…
Na mesma entrevista para a GloboNews, o senador afirmou que “ninguém imaginava” que Daniel Vorcaro pudesse estar envolvido em fraudes financeiras quando os contatos entre os dois começaram. A cronologia dos fatos, porém, contradiz essa versão. Desde julho de 2024, reportagens já apontavam operações consideradas “atípicas” envolvendo o Banco Master. O jornal O Globo noticiou negociações arriscadas com a Caixa Econômica Federal, enquanto a revista Piauí descreveu um ambiente de desconfiança no mercado financeiro em relação ao banco. Em 2025, as suspeitas se intensificaram e passaram a ocupar espaço ainda maior na imprensa meses antes da troca de mensagens entre Flávio Bolsonaro e o dono do Master divulgada pelo Intercept.
Mentira 5 – “O Master é do Lula”
Até a divulgação das mensagens, Flávio insistiu publicamente em associar o caso apenas ao Partido dos Trabalhadores. Em entrevistas, postagens nas redes sociais e eventos políticos, repetiu diversas vezes o slogan “O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula”, tanto em falas quanto em estampas de camiseta.
Em entrevista à CNN Brasil no dia 24 de março, o senador chegou a afirmar que “essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita”. No mesmo período, acusou o presidente Lula, o então ministro da Casa Civil Rui Costa, o senador Jaques Wagner (PT-BA) e outros integrantes do Governo Federal de terem proximidade com Vorcaro.
Com a divulgação das mensagens pelo Intercept, porém, a narrativa construída por Flávio Bolsonaro ruiu. Os diálogos revelaram não apenas a existência de negociações milionárias entre o senador e Vorcaro, mas também uma relação de proximidade incompatível com o discurso adotado publicamente até então.
Mentira 6 – Visita ao banqueiro preso
O senador Flávio Bolsonaro, que insistiu tratar apenas de negócios com Daniel Vorcaro, e que depois disse que ninguém poderia imaginar o envolvimento do banqueiro em fraudes financeiras, o visitou quando… ele tinha acabado de sair da prisão e estava usando tornozeleira eletrônica. Esse encontro, que nunca havia sido mencionado antes pelo parlamentar, ocorreu no final de 2025, logo após a primeira prisão do dono do Master.
Mentira 7 – O dinheiro do Master é privado
Ao tentar se defender, Flávio afirma repetidas vezes que os recursos de Daniel Vorcaro para a produção do filme Dark Horse, que conta a história de Jair Bolsonaro, eram exclusivamente “privados”. As investigações sobre o Banco Master, no entanto, não descartam a presença de verba pública para o filme advinda do banqueiro. A Polícia Federal apura suspeitas de irregularidades no uso de verbas de regimes próprios de previdência de estados e municípios, ou seja, dinheiro de aposentados. A prática pode ser considerada ilegal porque a União ainda tem prerrogativa para recorrer e contestar os valores devidos, o que impede o senador de assegurar que os recursos repassados por Daniel Vorcaro não tenham origem em dinheiro público. Além disso, há ainda suspeitas, sob investigação da PF e do Supremo Tribunal Federal, sobre o suposto uso de emendas parlamentares – dinheiro público, do Orçamento da União –, para bancar também a realização do filme e outras destinações ainda nada transparentes.