Um dos principais jornais britânicos, o The Guardian, classificou a ofensiva comercial do governo de Donald Trump contra o Brasil como um ataque à soberania nacional. Em editorial, o jornal afirma que os Estados Unidos tentam apresentar decisões autônomas do país, como a regulação das plataformas digitais e o desenvolvimento do Pix, como práticas comerciais desleais.
“A verdadeira infração não é o protecionismo, mas a autonomia”, resume o editorial.
Publicado sob o título “A visão do Guardian sobre a soberania do Brasil: Trump transforma autonomia em infração comercial”, o texto sustenta que a pressão de Washington vai muito além de uma disputa econômica. Para a publicação britânica, o governo norte-americano procura limitar a capacidade do Brasil de proteger sua democracia, organizar seu sistema financeiro e estabelecer regras para empresas estrangeiras que atuam no país.
O editorial lembra que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que plataformas digitais podem ser responsabilizadas, em determinadas circunstâncias, por conteúdos publicados por seus usuários, incluindo discursos de ódio e materiais antidemocráticos.
Na avaliação do The Guardian, o Brasil busca assegurar que big techs como X e Meta cumpram a legislação nacional. Trump, por outro lado, age como se os Estados Unidos tivessem o direito de decidir quais regras podem ser aplicadas no ambiente digital brasileiro.
“Lula quer que o Brasil seja capaz de combater a desinformação antidemocrática. Trump considera que os Estados Unidos deveriam ter jurisdição sobre o espaço informacional do país”, afirma o jornal.
A reação norte-americana veio por meio de uma ameaça de tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Segundo o editorial, Trump transformou a tentativa do Brasil de proteger sua democracia em uma suposta prática comercial injusta.
O texto também critica duramente a atuação de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos. Durante uma audiência da Comissão de Comércio Internacional norte-americana, o senador pediu que Washington adiasse a aplicação das tarifas até as eleições brasileiras de outubro.
O senador Flávio Bolsonaro tentou convencer as autoridades norte-americanas de que os problemas apontados pelos Estados Unidos seriam provocados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que uma eventual vitória bolsonarista poderia mudar a relação entre os dois países.
Para o Guardian, o senador não estava apenas tentando impedir a adoção das tarifas. “Ele estava fazendo um teste para se tornar o presidente brasileiro preferido de Trump”, diz o editorial.
O jornal considera a atitude uma tentativa explícita de usar a pressão de uma potência estrangeira para obter vantagem na disputa eleitoral brasileira. O texto observa que Flávio Bolsonaro apresentou a possibilidade de assumir o governo como uma solução para os interesses de Washington.
Segundo o The Guardian, o senador é menos carismático do que o pai, mas está ligado ao mesmo projeto político, marcado pelo “antiesquerdismo simplista”, por políticas punitivistas de segurança e pelas guerras culturais da extrema direita.
A postura é contraposta à defesa da soberania feita por Lula, que lidera as pesquisas eleitorais. O jornal descreve o presidente como “um dos políticos mais bem-sucedidos deste século” e destaca sua trajetória de operário, dirigente sindical, fundador do Partido dos Trabalhadores e presidente da República.
“De operário a líder sindical e fundador de partido, Lula transformou a redistribuição de renda na linguagem da democracia brasileira”, afirma o texto.
O editorial também menciona a queda da pobreza extrema durante os governos petistas e ressalta que Lula retornou à Presidência em 2023 depois que suas condenações judiciais foram anuladas.
Pix representa autonomia brasileira
Outro ponto central do editorial é o Pix, sistema público de pagamentos instantâneos criado e administrado pelo Banco Central. O jornal destaca que a ferramenta permite que cidadãos, empresas e órgãos públicos enviem e recebam dinheiro de forma rápida e simples.
Em 2025, segundo o texto, as transações realizadas por meio do Pix movimentaram US$ 6,7 trilhões. O sistema reduziu a dependência brasileira de redes privadas e estrangeiras de pagamentos, como as operadas por grandes empresas de cartões.
“O Brasil, assim como a Índia, construiu uma infraestrutura pública digital destinada a reduzir a dependência de redes de pagamentos controladas por estrangeiros e a proteger as transações nacionais de pressões ou sanções externas”, afirma The o Guardian.
Por funcionar como uma alternativa aos sistemas tradicionais de cartões, o Pix também ameaça os lucros de empresas como Visa e Mastercard. O jornal avalia que essa autonomia financeira ajuda a explicar por que o sistema brasileiro passou a ser tratado como um problema comercial por Washington.
Para o Guardian, o Brasil cometeu duas “infrações” aos olhos do governo Trump: criou uma infraestrutura pública de pagamentos bem-sucedida e afirmou sua autoridade sobre empresas norte-americanas de tecnologia.
“Trump reformulou essa soberania brasileira como discriminação comercial injusta”, diz o editorial.
Na conclusão, o jornal considera previsível, mas preocupante, que o bolsonarismo aceite colaborar com essa estratégia. Ao buscar apoio de Washington contra o governo brasileiro, Flávio Bolsonaro e seus aliados ajudam a transformar uma disputa comercial em instrumento de interferência política e eleitoral.
“É tão previsível quanto preocupante que o bolsonarismo esteja disposto a participar disso”, conclui o Guardian.