Milícia, Comando Vermelho e Banco Master. Três histórias separadas por anos, mas atravessadas pelo mesmo personagem: Flávio Bolsonaro (PL). No primeiro caso, ele homenageou Adriano da Nóbrega, apontado como chefe de milícia e integrante do Escritório do Crime. No segundo, apoiou a candidatura de Rodrigo Bacellar ao Governo do Rio de Janeiro. No terceiro, negociou com o banqueiro Daniel Vorcaro uma fortuna para financiar Dark Horse, filme de promoção política de seu pai, Jair Bolsonaro.
Os episódios ajudam a revelar o passado e o presente que Flávio tenta esconder enquanto busca apresentar ao país uma imagem moderada e um discurso de combate ao crime organizado. A trajetória documentada do candidato, no entanto, inclui homenagens, empregos em seu antigo gabinete e alianças políticas com personagens que acabaram envolvidos em algumas das investigações mais graves do Rio de Janeiro e foram condenados pela Justiça.
Mais recentemente, a relação com o dono do Banco Master acrescentou cifras milionárias a esse histórico. Flávio pediu a Vorcaro o equivalente a R$ 134 milhões para o Dark Horse e prometeu mostrar as contas do projeto, mas nunca apresentou publicamente os documentos. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) ainda revelou um novo repasse de US$ 1,6 milhão, feito depois da data apontada pelo candidato como o fim dos pagamentos.
Capitão Adriano: homenagem concedida na prisão
A relação de Flávio com o miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega começou a ser registrada publicamente em 2003, quando o então deputado estadual apresentou uma moção de louvor ao policial militar, elogiado por sua “dedicação, brilhantismo e galhardia”.
Dois anos depois, Flávio concedeu a Adriano a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Naquele momento, o ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) estava preso preventivamente, acusado do assassinato do guardador de carros Leandro dos Santos Silva. Adriano chegou a ser condenado em 2005, mas a decisão foi anulada e ele acabou absolvido em um novo julgamento.
Anos mais tarde, Adriano foi apontado pelas investigações como chefe de uma milícia que atuava na Zona Oeste do Rio e integrante do Escritório do Crime, grupo de assassinos profissionais. Ele morreu em fevereiro de 2020, durante uma operação policial na Bahia, depois de passar quase um ano foragido.
A ligação com o gabinete de Flávio Bolsonaro também foi além das homenagens. A mãe e a então mulher de Adriano foram empregadas como assessoras do parlamentar na Alerj. As duas deixaram os cargos em novembro de 2018, quando vieram à tona as movimentações financeiras suspeitas envolvendo Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio e amigo de Jair Bolsonaro.
Mesmo diante desse histórico, Flávio voltou a defender a homenagem durante entrevista à TV Globo, em 28 de agosto. “Na época, ele era um policial exemplar que estava preso injustamente”, afirmou o candidato. As informações sobre a prisão de Adriano, as condecorações e a presença de seus familiares no gabinete, porém, estão documentadas.
Bacellar: do apoio de Flávio Bolsonaro ao banco dos réus
Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, também circulou no núcleo político da família Bolsonaro. Ele estreitou relações com Flávio e Carlos Bolsonaro e recebeu o apoio do grupo para sua tentativa de disputar o Governo do Rio. O acordo previa ainda que o bolsonarismo indicasse o candidato a vice-governador.
Os planos foram interrompidos pelas investigações sobre o vazamento de informações da Operação Zargun, deflagrada para combater esquemas de tráfico internacional de armas e drogas e lavagem de dinheiro ligados ao Comando Vermelho.
Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), Bacellar teria recebido antecipadamente informações sigilosas e alertado o então deputado estadual TH Joias, acusado de atuar como braço político da facção. A acusação afirma que TH trocou de celular, retirou objetos de sua residência e esvaziou o gabinete antes da chegada dos policiais.
Bacellar foi preso inicialmente em dezembro de 2025. Após ser solto por decisão da Alerj e passar a usar tornozeleira eletrônica, voltou a ser preso pela Polícia Federal em março de 2026. Seu mandato também foi cassado por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.
Em agosto, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal aceitou por unanimidade a denúncia da PGR. Bacellar, TH Joias e outros três acusados tornaram-se réus por supostamente obstruírem uma investigação contra organização criminosa armada. A defesa do ex-presidente da Alerj nega as acusações e afirma que demonstrará sua inocência durante o processo.
R$ 134 milhões de Vorcaro e a conta que não fecha
A relação de Flávio com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, começou a ganhar dimensão pública após a divulgação de mensagens, documentos e áudios pelo Intercept Brasil.
Antes das revelações, Flávio chegou a negar que conhecesse Vorcaro e classificou como mentira a informação de que o banqueiro havia financiado o Dark Horse. Horas depois, com a publicação das provas, mudou sua versão e admitiu que havia procurado o dono do Master para captar recursos.
As conversas mostram que Flávio negociou um aporte de quase US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época. Pelo menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, foram transferidos inicialmente em seis operações para o fundo norte-americano responsável por administrar os recursos do filme.
O relatório mais recente do Coaf revelou outra transferência de US$ 1,6 milhão, realizada em setembro de 2025, oito dias depois de Flávio cobrar parcelas atrasadas a Vorcaro. O pagamento desmente a afirmação do candidato de que o banqueiro não havia colocado “qualquer dólar” na produção depois de maio daquele ano.
O dinheiro saiu de empresas ligadas ao dono de um banco que seria liquidado pelo Banco Central e se tornaria alvo de uma investigação sobre fraudes financeiras bilionárias. As apurações também alcançaram suspeitas de irregularidades em 250 mil contratos de empréstimos consignados, envolvendo aposentados e pensionistas.
Flávio insiste que os recursos destinados ao filme eram privados. Também prometeu apresentar uma prestação de contas detalhada, com contratos, notas fiscais, extratos e beneficiários. Os documentos, contudo, nunca foram divulgados ao público, e as investigações continuam sob sigilo no STF.