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STF põe filme sobre Bolsonaro na mira da Polícia Federal por suspeita de lavagem

Ministro André Mendonça autoriza inquérito para rastrear R$ 61 mi repassados por Vorcaro a pedido de Flávio Bolsonaro; investigação vai apurar possíveis crimes de evasão de divisas e corrupção

A investigação buscará esclarecer se o dinheiro foi efetivamente utilizado na produção cinematográfica ou se a justificativa do filme serviu para encobrir outras operaçõesFoto: Site do PT

Produzido para levar aos cinemas uma versão heroica da trajetória de Jair Bolsonaro, o filme Dark Horse agora também será retratado nas páginas de um inquérito policial. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal (PF) a investigar o financiamento da cinebiografia e o destino de aproximadamente R$ 61 milhões repassados pelo ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em pedido feito ao banqueiro pelo senador Flávio Bolsonaro.

A investigação buscará esclarecer se o dinheiro foi efetivamente utilizado na produção cinematográfica ou se a justificativa do filme serviu para encobrir outras operações. A Polícia Federal vai apurar suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, além da atuação de Vorcaro, do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e de outros intermediários envolvidos nas transferências.

O ministro André Mendonça atendeu a uma solicitação da PF depois que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, apontou a existência de elementos suficientes para a abertura formal do inquérito. O procedimento tramita sob sigilo.

R$ 134 milhões negociados e R$ 61 milhões pagos

As suspeitas começaram a ganhar corpo após o Intercept Brasil revelar mensagens, áudios, planilhas e documentos bancários relacionados ao financiamento de Dark Horse. Segundo o material publicado, Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro um aporte total de US$ 24 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época.

Desse total, pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, teriam sido efetivamente pagos entre fevereiro e maio de 2025, por meio de seis operações. O dinheiro teria sido enviado ao exterior sob a justificativa de custear a produção internacional do filme sobre Bolsonaro.

Um dos documentos obtidos pela reportagem é o comprovante de uma transferência de US$ 2 milhões realizada pela Entre Investimentos e Participações para o Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos. O fundo era controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

As mensagens reveladas também indicam que Vorcaro acompanhava pessoalmente o cronograma dos repasses. Em determinada conversa, diante de atrasos nos pagamentos, o ex-banqueiro classificou o financiamento do filme como “o mais importante disparado” e ordenou que a operação não poderia mais falhar.

Flávio pediu, cobrou e depois negou

Os registros mostram que Flávio Bolsonaro participou diretamente das negociações. O senador teria pedido recursos, acompanhado a liberação das parcelas e cobrado Vorcaro quando o fluxo de pagamentos foi interrompido.

Ao ser questionado pelo Intercept, em maio, sobre o dinheiro destinado ao filme, Flávio inicialmente negou a informação. “De onde você tirou essa informação? É mentira”, respondeu antes de deixar o local onde concedia entrevista. Após a divulgação das mensagens e dos documentos, passou a afirmar que os aportes foram destinados exclusivamente à produção e que não houve irregularidade.

Na quinta-feira, 23, ao comentar o avanço da investigação, o pré-candidato do PL voltou a dizer que não havia nada de irregular, mas classificou as apurações como uma perseguição.

“A perseguição é desproporcional. Não adianta eu ficar me explicando ponto a ponto, porque não tem nada, mas cria-se essa atmosfera”, declarou.

A Polícia Federal, porém, quer saber se parte dos recursos enviados aos Estados Unidos pode ter custeado despesas de Eduardo Bolsonaro ou financiado ações de aliados do ex-presidente junto ao governo de Donald Trump. Eduardo nega ter recebido o dinheiro e afirma que apenas cedeu seus direitos de imagem ao fundo ligado à produção.

PF também analisará emendas de Flávio

A apuração não ficará restrita às transferências internacionais. A pedido da Procuradoria-Geral da República, a PF também deverá levantar as emendas parlamentares apresentadas por Flávio Bolsonaro para verificar se alguma delas beneficiou o Banco Master ou empresas relacionadas à instituição financeira.

Também serão examinadas as participações do publicitário Thiago Miranda, apontado como intermediário das tratativas, e de sócios brasileiros da Entre Investimentos e Participações e da holding Havengate.

Até a autorização concedida pelo STF, a Polícia Federal ainda não havia solicitado buscas, apreensões ou quebras de sigilo, porque parte dos envolvidos possui foro por prerrogativa de função. Com a abertura do inquérito, os investigadores poderão aprofundar a reconstrução do caminho percorrido pelos recursos.

“Agora a coisa ganha outro patamar”

O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), havia acionado o Supremo após as primeiras revelações sobre as negociações entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro. A notícia-crime apresentada pelo parlamentar foi formalmente arquivada, seguindo parecer da PGR, mas os fatos apontados passaram a integrar a apuração solicitada pela própria Polícia Federal e agora autorizada por Mendonça.

Ao comentar a decisão, Lindbergh afirmou que a investigação deverá revelar o verdadeiro destino do dinheiro.

“Agora vai vir muita coisa, pode vir quebra de sigilo, pode vir pedido de prisão preventiva. O fato é que Flávio Bolsonaro disse que em um mês ia explicar para onde foram os R$ 61 milhões. Eles só se enrolam. A partir de agora, a coisa ganha outro patamar”, declarou.

Cinebiografia bolsonarista

Dark Horse, expressão inglesa que significa “azarão”, foi concebido para retratar a ascensão política de Jair Bolsonaro e a campanha presidencial de 2018. O longa é dirigido pelo cineasta Cyrus Nowrasteh, tem roteiro do deputado bolsonarista Mário Frias (PL-SP) e traz o ator norte-americano Jim Caviezel no papel do ex-presidente.

A investigação não representa uma conclusão sobre a existência dos crimes. Caberá agora à Polícia Federal rastrear os recursos, ouvir os envolvidos e verificar se os milhões transferidos ao exterior foram usados apenas para colocar a família Bolsonaro nas telas ou se o filme serviu de fachada para uma operação financeira muito maior.